31 agosto, 2016

Tudo bem ter uma recaída, não é?
Quero dizer, tudo bem trair meus princípios de novo,
tenho tantos amanhãs pra
continuar tentando.
Não é?


28 agosto, 2016

O fim

Eu relutei em escrever sobre nosso fim. Eu nunca soube bem como descrever nada entre nós. Nossa relação, nossas incompatibilidades, tudo sempre foi um incógnita em meu peito.
E agora, igualmente não sei como encarar um fim tão indefinido, menos ainda explicá-lo em palavras.
Me envergonho em assumir que quando tudo começou, não era exatamente você que eu enxergava, demorou um tempo até que eu pudesse assimilar e parar de visualizar outra pessoa em seus olhos. Mas eu enxerguei você. Sim, com o tempo eu aprendi a gostar das suas particularidades, do seu maxilar quadrado e das suas mãos calejadas.
Eu não te amei, anjo. Mas eu nutri por você um sentimento igualmente puro que me levou a fazer da minha vida sua. E vice versa. Você também não me amou, eu sei que não. Talvez por isso nossa separação pareça tão insossa, tão previsível.
Mas eu sinto a sua falta. Sinto falta da sua casa que já era tão minha, do meu toddynho na geladeira, do cheiro dos seus lençóis. Sinto falta do seu queixo nas minhas costas nas noites frias, de me embolar com você no carpete até ficar sem ar, do cafuné gratuito numa tarde de domingo.
Vez ou outra ainda nos encontramos. Conversamos sobre a vida, as pessoas, sobre nós. Sem brigas, sem cobranças, sem pudor. O nosso fim não é exatamente um fim. Ás vezes toco seu interfone de madrugada, bêbada. Você me acolhe, me devora, me deixa dormir até mais tarde. Eu prefiro acreditar que somos adultos suficientes a dizer que, talvez, em outras circunstâncias, teríamos nos amado e construído uma história eterna.
Você diz aceitar com naturalidade quando eu encontrar um outro alguém, eu já não sei como meu coração vai reagir. Sou ciumenta, você sabe. Isso faz de mim egoísta?
Mas eu sei que não há mais possibilidade. Não de dividir uma vida. Não de seguir adiante. Nós não fomos feitos um para o outro e não vou fingir que não fiquei triste. Acho que há sempre um ar melancólico quando um relacionamento acaba. Mas aceitei em paz as escolhas do destino.
Na minha agenda, seu nome ainda consta como "Anjo". E não acho que eu deveria mudar. Não tenho raiva, não tenho mágoa, não tenho culpa. Você vai ser pra sempre especial.


Toda sexta feira eu bebo doses de coragem servidas em copos americanos, me embriago, conto as mesmas histórias e finjo estar feliz. Às duas ou três da manhã eu entro em meu carro e prometo ir pra casa. Mas sempre acabo tocando o interfone da casa dele e, com uma voz culpada, peço "abre o portão". A gente se devora e adormece, com exaustidão. Quando amanhece, eu durmo por mais algumas horas e ele se despede com doçura. Eu volto pra casa e é só isso.
Foi só isso que sobrou de nós.

Nunca foi amor, mas insiste tanto em ser

"Estava a pensar em não vir. No fundo, estou a pensar nisso até agora. Mas fico aqui, com cara de taxo, olhando as tuas coisas bagunçadas, os meus neurônios bagunçados, o meu coração bagunçado, o meu vestido bagunçado e tudo que estava quase arrumado em mim se confunde num segundo quando ele se aproxima como quem já aceitou casar comigo, mas não disse “sim”. Apenas me mira com sorriso de bobo me revirando ainda mais. Uma grata desgraça.
Eu não queria vir. Na verdade, eu queria. Eu não queria era vir aqui, me apaixonar mais ainda e ter que ir embora sozinha. Porque sempre que venho, ele entra em mim, mas não mora. Ele me abraça, mas não me prende. Ele é meu par, mas não meu companheiro. Ele se deita, mas não fica. E eu continuo aqui sozinha mesmo sendo dois. Solidão besta. Não é fácil gostar dele. Já quis o matar tantas vezes. Mas ainda não morri.
Mas daqui a pouco, depois de gozar em mim como se eu tivesse pedindo aquilo como um prêmio ou coisa assim, ele vai se virar para o lado, olhar no relógio umas quinhentas vezes, o celular vai tocar sem parar e, logo, logo, ele arrumará algo pra fazer e ir embora. Eu conheço o seu jogo. Vai dizer que precisa salvar o mundo, buscar a tia avó no hospital, ver futebol, reencontrar um amigo ou buscar a prima na faculdade, sei lá. Só sei que ele vai. E eu queria estar aqui quando ele voltasse. Eu queria que eu fosse o motivo para ele voltar. Queria que eu fosse seu mundo, sua tia avó, seu futebol, sua amiga, sua prima, sua puta ou coisa assim.
Juro que vou embora antes mesmo dele entrar no banho. Mas ele sem camisa parece um canto sagrado. Mesmo com as leves marcas de queimadura na barriga só porque não sabe nem fritar um bife sem se machucar. Ele me pede 'faz-um-lanche?' e eu já proponho banquete nupcial. Ele me pede umas horas no dia e eu já quero décadas juntos. Ele me pede um tiquinho de qualquer coisa e eu já venho com temporadas completas. Deve ser isso. Meu erro é mergulhar de cabeça, enquanto ele ainda molha os tornozelos. Quero saltar do avião e ele deseja apenas uma companhia para quando estiver nas nuvens. “Eu quero meter”, ele diz. “Eu quero te ter”, penso.
Nunca foi amor, mas insiste tanto em ser. "



Suzana Moreira

10 agosto, 2016

Encontro

Assim que estacionei, de longe visualizei seu vulto. Alguma coisa se contorceu no meu estômago e só então me dei conta do quanto estava nervosa. Era ridículo isso; minhas mãos tremiam violentamente, e eu sei que você percebeu como aquele encontro me afetava.
Conversamos por alguns segundos, ou minutos, ou por uma hora, não sei. E a verdade é essa: quando se trata de você, eu nunca sei de nada. Não sei o que sinto, o que é permitido, o que é real. Perco um pouco a noção entre presente e passado e me afogo nos meus próprios anseios.
Ficamos ali falando sobre assuntos superficiais e fugindo quando nossos olhares se encontravam. Risos de nervoso entrecortavam o silêncio quando as palavras acabavam.
Eu não sabia mais que dava pra ser assim... O que me recordava (e esperava) de nós era tão turbulento, tão conturbado, que nossa calmaria me surpreendeu e retocou sua imagem dentro de mim. Você estava ali, na minha frente, e eu não tinha ódio, não tinha mágoa, não sabia o que dizer. Era apenas uma pessoa normal reencontrando um alguém incrível.
Quando saímos dali, nossas bocas se encontraram automaticamente num beijo desesperado e eu soube que o que eu senti por você nunca teve fim. Eu senti seu peso em mim e suas mãos no meu cabelo, o desejo brotou mais forte que nunca e seu cheiro trouxe à tona todas as nossas noites, nosso encaixe, nosso suor. Quando nossos corpos se tocam, eu quase posso jurar que uma química única paira no ar.
Mas no meio dessa nuvem, como no fim repentino de um sonho, você se foi. 
Continuo esperando uma chance de ver transbordar aquele vulcão que acordamos com esse encontro, mas por mais que eu tenha acreditado que minha presença transformaria algo em você, é uma espera unilateral.
Confesso que tive esperanças de que você não conseguisse se afastar depois de sentir meu gosto. Esperanças de que relembrar nossa história despertasse em você qualquer coisa que fosse tão forte quanto o que senti todos esses anos.
Mas a verdade toda é que preciso parar de romantizar coisas que não tem nada a ver com amor. A sua partida é só a sua partida.
Gradativamente, a minha saudade aumenta a cada dia, e a lembrança dessa noite se torna cada vez mais forte. Quase posso sentir sua presença quando me deito para dormir. 
Sinto vontade de sentir seu corpo em mim, suas mãos na minha cintura, seu hálito no meu rosto. Vontade de pular num abraço forte, de acordar olhando pros seus olhos cor de mel. Só aumenta meu anseio de apertar a sua mão durante um filme, de dançar com meu corpo colado no seu, de ouvir seu riso sufocado pelas minhas cócegas.
Todo o desejo que sinto tem a ver diretamente com o amor que tenho por você.
E agora, mais do que nunca, ele só aumenta.

20 julho, 2016

Insônia

São cinco horas da manhã e eu ainda não consegui dormir, tenho sonhado com você há três noites consecutivas. Eu não sei o que fazer. Já assisti todos os meus filmes, e reli os meus livros preferidos, já é quase dia e eu não consigo parar de ver aquela cena, a primeira vez que permaneci acordada uma noite inteira até ver o sol nascer... Já vão se fazer três anos e eu ainda me lembro. Foi também a primeira vez que te olhei encantada, a primeira vez que te beijei. Naquela calçada, um pouco embriagados, ríamos de tudo e não importava que os carros tivessem os faróis ainda acesos ofuscando nossa visão.
Eu sinto sua falta...


"Ontem à noite eu conheci uma guria, já era tarde, era quase dia; era o princípio de um precipício, era o meu corpo que caía. Ontem a noite, a noite tava fria, tudo queimava mas nada aquecia. Quando ela apareceu parecia tão sozinha, parecia que era minha aquela solidão. Eu conheci uma guria que eu já conhecia, de outros carnavais, com outras fantasias, quando ela apareceu parecia tão sozinha, parecia que era minha aquela solidão." E.H.

18 julho, 2016

Conexão

Eu não quero alguém que, num primeiro encontro, não faça nada além de me erotizar. Alguém que, na primeira troca de mensagens, me pergunte o que estou vestindo, e insista em pedir fotos, "Ah, uma um pouco mais sensual, vai", "Uma de corpo inteiro", "Manda de pijama, huuum."...
Quero distância de gente que, antes mesmo do primeiro beijo, me diga grotescamente o quanto minha cintura e meu cabelo atiçam a imaginação e force a barra insistentemente.
Eu quero gente gostosa. Gostosa de conversar, gostosa de abraçar, gostosa de rir junto. Gente que embala e faz o dia passar depressa, que não constrange com cantadas mecânicas. Quero gente que repare nos meus olhos e nos meus assuntos pra ver se gosta ou não gosta de mim, que cai fora quando não flui, que fica quando se sente em casa, não importa se a conversa vai dar num boteco, num cinema, ou na minha cama.
Eu quero naturalidade, quero vibração, quero um beijo que seja como se já tivesse acontecido milhares de outras vezes antes mesmo de ter existido.
Quero gente que se importa com a química da alma, que me deseje pelo meu cheiro, pela minha inteligência, pela nossa conexão, que me toque com carinho e não por egocentrismo e pela necessidade de se auto afirmar sexualmente.
Quero gente que respeite o meu não, e, principalmente, gente que respeite o meu sim. Que entenda que eu não sou um pedaço de carne e gosto de sexo tanto quanto qualquer um, que também espere que ele seja parte de um contexto, que tenha paixão, intimidade. Não me importo que seja por uma noite ou por um mês ou por uma vida inteira. Só me importo que seja completo.
Só vale a pena se for incrível.

24 junho, 2016

Sinto você encaixar seu queixo na curva das minhas costas. De início incomoda um pouco, mas permaneço imóvel quando vejo que você adormeceu. Ali é seu melhor encaixe e não ouso interromper esse momento. Mesmo dormindo, você passa seus braços ao redor da minha cintura e suspira fundo, se aninhando. Não há nada mais reconfortante do que essa sua manifestação involuntária de afeto.


16 junho, 2016

Não dá pra continuar assim

"(...)Eu sei que é difícil dizer adeus, pior ainda quando a gente não entende muito bem a razão da despedida, mas chega uma hora que precisamos admitir pra nós mesmos que não dá mais pra continuar lutando por algo que já chegou ao fim. Temos que aceitar quando chega o momento de jogar a toalha. No seu caso ele já passou. Você tá brigando sozinha há não sei quanto tempo e tudo em que isso pode resultar é em mais desgaste emocional. Ele não vai voltar. Ele nunca mais vai tocar a sua campainha e pedir pra entrar só uns minutinhos. Não importa quantas vezes você poste a música de vocês ou quantas mensagens cê envie bêbada. Ele não se importa mais.(...)"

15 junho, 2016

Migalhas

Eu perdi as forças e cruzei a linha do perigo. Abri uma brecha enorme e aguardei você entrar por ela. Uma parte de mim acredita nas suas palavras, a outra dá o sinal de alerta. É como se você quisesse apenas reafirmar seu ego, me atingindo com frases confusas e vazias para atiçar a minha imaginação e depois me rejeitando. Como se seu prazer fosse me observar rastejando, implorando, definhando. Mas ainda sabendo disso, fui eu mesma quem abri espaço, não é?
Ávida por suas ilusões, acredito quando diz que olhava pro meu contato todos os dias na espera do desbloqueio, sorvo cada palavra desesperadamente quando fala ter procurado vestígios no meu blog. Permaneço buscando sinais, descodificando status, acatando esperanças.
Mas preciso encarar a verdade: Em todo esse tempo, você nunca me procurou. Nenhuma ligação, nenhuma recaída, nenhuma palavra consistente. Por mais que meu egocentrismo queira acreditar que fiz falta por todo esse tempo, não posso ignorar a realidade, que vem em potes transparentes depositados no meio dos meus delírios ou em palavras claras e precisas de pessoas que me querem bem. "Sinto muito, Sol, mas ele realmente não se importa com você."
Que ninguém se atreva a dizer que passo por tudo isso porque "eu quero". O que eu realmente quis foi esquecer você. Mas quanto mais o tempo passa mais parece distante essa possibilidade e então eu preciso de alguma coisa além da verdade. Qualquer coisa. Me alimento de suas palavras esporádicas de saudade enquanto você se alimenta do meu amor doentio. Eu simplesmente não consigo ficar realmente longe de você. 
Vou desejando sempre mais e aceitando menos.
Esse amor febril me fez refém dessas migalhas.