É isso. De repente, piscou nos meus olhos a proposta de deixar pra trás todas as pequenas coisas que conquistei em busca de conquistas maiores. E sei que não é como antes, não é como se eu pudesse me refugiar em casa duas vezes por semana. É uma longa estrada e uma vida inteiramente nova.
Eu já não esperava mais nada. Já não sonhava com nada muito além do padrão que sigo vivendo. Não que eu esteja reclamando, claro que não, só não sabia mais o que era esse frio na barriga, esse misto de medo e esperança que me tira o sono e me desencaixa de todos os eixos. E  por isso topei.
Nunca fui boa com mudanças, lidar com o desconhecido me assusta. Mas ao mesmo tempo visualizar qualquer história que seja diferente me salva da morte lenta e morna que é a acomodação. Em menos de um mês todo meu mundo vai mudar -pra melhor ou pra pior- e tudo que eu posso fazer é juntar todas as minhas forças pra encarar o que quer que esteja me esperando nessa cidade nova, nessas amizades novas, nessa vida nova.

Talvez você estivesse nervoso demais ou eu estivesse presa demais a histórias do passado. Não sei. Eu gostei da sua presença e gostei da sua conversa, mas não o suficiente, pois voltei pra casa e deixei a lembrança do seu beijo sumir. Mas você me disse que tudo tinha sido ótimo e que a minha boca era macia e disso eu não me esqueci. Por isso comecei a pensar em como eu estava passando todo o tempo me bloqueando e me blindando à qualquer sentimento de apego, fugindo das pessoas e das sensações, e comecei a entender que talvez eu só não tinha me permitido realmente olhar pra alguém.
Então eu quis te olhar. De verdade, sem medo, sem travas, sem projetar em você qualquer mágoa do passado.
E olha como o mundo é, nenem, eu te olhei e eu já sabia que era a escolha certa. Naquela tarde quente eu cheguei mais perto pra sentir seu perfume. É, foi por isso que eu me sentei do seu lado. Desde então seu cheiro é tudo que eu quero sentir.
Eu fiquei assustada por acabar chegando sempre nos mesmos lugares que os seus. Será que eu estava consciente de que só estava tentando me aproximar? Será que você estava consciente disso?
Você sabe, eu não sei lidar com essa história de gostar de alguém. Todas as vezes que eu tentei, você sabe nenem, deu tudo errado. Então não tem sido fácil e não é uma escolha minha duvidar de tudo a minha volta. Faz tão pouco tempo que você passou a ser importante na minha vida, e eu já não sei mais como seria se não houvesse você nela. Você entende que eu estou me apaixonando? Você sabe o quanto isso é perigoso pra mim?
Eu gosto do seu cheiro e gosto do seu cabelo preto. Gosto do seu beijo e da maneira como você me toca. Eu poderia passar várias noites seguidas te observando dormir ou conversando sobre a vida. Poderia ver todos os filmes do catálogo e ainda assim não teria me cansado de você.
Você é especial, nenem, e assaltar a geladeira de madrugada do seu lado é melhor d
o que qualquer balada cheia de gente vazia.

Liberdade

Eu me lembro claramente da sensação: a solidão tem uma força quase física. Eu ficava em casa quando queria sair pra me divertir porque não havia companhia. Eu tinha a casa vazia e não sabia quem convidar pra uma festa. Doía. Eu me relacionava com pessoas que não me queriam bem apenas para fugir do desespero que me assolava.
Passei carnavais trancada em casa com o vazio e as mágoas.
Eu o invejava porque ele tinha tudo que eu queria ter: tinha amigos, tinha diversão, tinha uma vida agitada e muitas opções. Eu acreditava precisar dele porque ele parecia me oferecer uma vida incrível, mas não oferecia. O que eu tinha era muito pouco e ninguém pode nos completar com tanto. Eu estava sozinha e a companhia dele não podia preencher todos os espaços. Mas eu quis desesperadamente que pudesse, eu me apeguei e me acorrentei àquele sentimento, mas eu era âncora e ele não fez com que eu parasse de afundar, pelo contrário, ele pisoteou com força e eu caí na velocidade da luz.
Mas de repente, sem que eu me desse conta, tudo mudou com uma intensidade incrível; e me deixando levar pela maré sequer parei para analisar. Eu me embrenhei na noite e me joguei nas festas como se o mundo fosse acabar, eu sanei todas as ausências e toda minha necessidade natural de agitação, eu fiz amigos e história.
Até que chegou o carnaval. Parece superficial, mas te garanto, não é. Foi nesse carnaval que eu respirei fundo e entendi que minha vida finalmente está em paz. Sei disso porque dessa vez eu tive escolha, eu fiquei por um único motivo: porque eu quis. Agora eu sei que tudo que sempre me faltou foi liberdade.
E hoje eu sei que não preciso de ninguém para me completar. Eu estou onde quero estar, eu faço o que eu quero fazer, não sou mais aprisionada pela minha doença.



Ele é lindo, sim ele é. Me olhava de um jeito apaixonante e me apertava nos braços quando me via - em qualquer lugar a qualquer hora -. Ele ria e cantava comigo como se fôssemos duas crianças, me mandava bom dia de manhãzinha e me enchia de beijos a noite.
E ele quase me enganou. Com aquela voz doce e aquele sorriso irresistível, eu quase me perdi de paixão.
Mas esse não é quem ele é. Eram truques e eu estive perto de cair neles. Por sorte eu aprendi a identificar detalhes, e foram eles quem mataram todo o encanto que ele havia me causado. Na mesma proporção que chegou o encanto o asco tomou o seu lugar.
Ele é só mais um cafajeste entre tantos.


Eu tenho uma relação doentia com o passado. Eu transformo em tormento até mesmo a melhor das lembranças, eu não sei sentir saudade sem melancolia. Todas as minhas memórias são carregadas de arrependimentos, saudosismo ou mágoas.


Um pedaço seu

Não importa onde eu vá, alguém sempre tem um pedacinho seu.
A expressão de olhar, a barba, a boca, o jeito manso de falar. Alguém tem suas manias, seus defeitos, seu jeito arrebatador. Sempre tem um pouco de você em cada esquina que eu piso, em cada corpo que encontro, em cada história que vivo.
Não sei até quando estou fadada a viver essa maldição, até quando os traumas vão me acompanhar, mas sua presença não para de me perseguir. Eu fujo das pessoas porque elas me lembram você, mas as semelhanças não param de aparecer... Talvez esteja só dentro de mim, talvez ele não tenha o timbre da sua voz, talvez aquele outro não tivesse a boca assim tão parecida com a sua, talvez as barbas sejam mesmo todas iguais... Não sei.
Mas não quero mais lidar com a sua presença imaginária, com os mesmos medos e os pré-julgamentos que são arrastados pela lembrança do passado. Estou cansada de estar aprisionada a reviver as dores que sua existência me deixou. 



"Memórias não são só memórias, são fantasmas que me sopram aos ouvidos coisas que eu nem quero saber..."

Final


Fiquei três dias sem medicação pra que eu pudesse chorar. Parece meio ridículo querer chorar, mas engolir toda a dor calada é muito mais cruel. 
Estou cansada de sobreviver. Os remédios evitam que eu entre em crise, seguram meu choro, minha palpitação, meus gritos, mas os remédios não me preenchem. Eu tentei tanto acreditar que tinha solução, acreditar que tudo não tinha passado de uma fase ruim, mas não dá pra ignorar o que já nasceu predestinado dentro de mim.
Estou cansada dessa sensação de dormência que todo esse controle médico trás. Eu quero liberdade, mesmo que ela me custe minha vida. Não quero provar que sou forte e cogitar sempre continuar por motivos alheios. Eu não quero continuar porque isso nunca vai parar. Já estou velha demais pra acreditar que, de alguma maneira mágica, tudo dá certo no final. O final já chegou.
Há três dias não tomo minha medicação e você pode acreditar que é estupidez, mas ninguém jamais vai entender como é precisar sair do piloto automático e respirar pra tentar entender realmente a situação.
Não é como se tivesse um motivo: não há um coração partido, um problema financeiro ou uma briga entre amigos que justifique o que sinto. Não há nada latente ou que possa ter despertado tudo isso. Simplesmente está aqui. Um vazio imenso e uma angústia paralisante. Uma insatisfação pessoal que não tem cura. A ausência de sonhos, de desejos, de boas memórias.
Eu não quero conhecer a praia, e também não quero me casar, nem ter filhos. Eu não quero aprender um outro idioma ou ir pra outro país. Não quero ser famosa e nem quero mudar o mundo. Nada existe pra mim.
Eu passei 20 horas dormindo e 3 horas ininterruptas chorando. Eu só quero que tudo acabe pra sempre. Não quero mais tentar.

AA


Eu quase cheguei lá. Por pouco não cheguei aos 15 dias mas tive que reiniciar a contagem.
No auge da embriaguez lá estava eu, mais uma vez, tocando seu interfone e perdendo a sensatez. Mais uma vez, como um viciado em químicos, eu me arrependi no dia seguinte. Recomecei. Sempre há tempo, não é? É o que dizem para os Apaixonados Anônimos.

Não sou viciada em amores. Sou viciada em obsessões;


"Por amor as causas perdidas"


Não adianta você me olhar torto e nem me encarar na rua. Não vai funcionar. Nem precisa me mandar mensagem com uma desculpa esfarrapada pra puxar assunto comigo.
Também não vai resolver você me implicar e jogar meu nome nos grupos em comum. Eu não ligo. Você sabe, eu te disse, eu nunca tive saudades de você. Não tive saudades da pessoa que você era e quem você se tornou agora é um estranho pra mim, então esquece todo esse joguinho babaca e inútil e volta pra sua vida tosca e fútil.
Eu não sinto mais tesão por você, garoto. É isso. Eu não te desejo, não, nem por um segundo. A sua presença no mesmo ambiente que eu não me faz a mínima diferença.
Eu realmente não sei em que momento você se tornou esse cara do qual as pessoas costumam ter nojo. Eu não me lembro mais de como você era antes, mas não faz diferença. Só para que tá feio.

Eu não seria capaz de contar quantos livros já li durante toda a minha vida.
Comecei bem cedo, ainda criança, quando a professora os colocava em cima da mesa e mandava que escolhêssemos; eu não escolhia pelas gravuras, como as outras crianças, eu lia a primeira e a última frase até que alguma despertasse meu interesse. Assim que tive autonomia para ir à biblioteca, eu o fazia diariamente. Me lembro bem do corredor grande com pisos vermelhos que levava à biblioteca, e de como a luminosidade era boa quando me sentava no chão. Mas ninguém gostava da menina que passava os recreios sentadas no corredor com um livro no colo, então passei a escolhê-los com pressa, guardar na mochila e ir para o pátio. Então lia em casa, fissurada, completamente absorta.
Eu sempre achei que os livros são como pássaros: Você não pode simplesmente querer possuí-los pra sempre por puro egoísmo. Eu gostava de imaginar quantas mãos já os tinham tocado, e quantas ainda iriam tocar. Me extasiava com as assinaturas na capa de pessoas que já os tinham levado pra casa.
Sempre acreditei que se entregar naquele momento era o importante, apenas.
Eu amo as histórias. Eu amo viajar, amo o jeito que minha mente se teletransporta e volta. Eu não amo o papel.
Eu amo a leitura, eu amo a escrita, todo o êxtase de colocar nas letras o sentimento do momento, o impulso. Às vezes, escrevo em pedaços avulsos de papéis e os vejo queimar. A emoção do momento é o que me importa.
Tudo isso é muito mágico para mim.

Sabe, gatinho, durante muito tempo eu chorei a sua ausência. Eu chorava dias e noites por um misto de mágoa e saudade, e às vezes me perguntava se aquela dor em algum momento iria cessar. Eu te odiava pra tentar compensar a inocência que você me roubou, mas um dia, quando eu abri os olhos, eu me dei conta de que já não doía como antes e que eu estava pronta para seguir em frente. E eu o fiz. Conheci novas pessoas e novos lugares, acreditei que rodando o mundo encontraria um sentimento que preenchesse o vazio de tudo que você levou de mim.
Mas é isso: quando a dor finalmente se foi, ficou o vazio onde costumava morar o ódio que cultivei de você. E esse espaço passou a me devorar. Já há muito tempo esse vazio é tudo que sinto e descobri que te ter não preencheria essa lacuna. O que se foi é pessoal demais, parcial demais. Você jamais poderia repor os sonhos que tirou de mim.
Agora não existe mais ódio, agora não existe mais nada. Apenas continuo buscando me reconstruir.

São duas horas da manhã e eu estou ouvindo Tiago Iorc. Há horas tomei o meu calmante mas ele não surtiu efeito dessa vez. Hoje passei a tarde nostálgica.
Saudade.


"Eu vejo mulheres maravilhosas à minha volta, engolidas pelos homens com quem elas namoram.
Eu vejo mulheres que adoram dançar e têm uma música favorita, mas que não sabem realmente dizer quando foi a última vez que ouviram esse som, alto, preenchendo a casa toda. Seus gostos são confinados a fones de ouvido e, mesmo que elas não admitam, na casa só se ouve o que o namorado também goste. Aliás, deixam de assistir séries, filmes e programas de TV porque sabem que o namorado não vai gostar.
.Aos poucos, começam a se interessar pelas coisas que o namorado se interessa. “Não tem importância, eu também gosto”. E começam até a achar ridículo o que gostavam antes, faziam antes. O namorado ensina o que é legal, tem um monte de coisas pra mostrar, mostra coisas o tempo todo, muita coisa interessante. Nunca realmente adota um gosto dela, mas tem vários pra apresentar.
.E assim é a vida juntos. A parede da sala é da cor que o namorado achou aceitável, a estante cheia dos livros do namorado, videogames do namorado, cds de bandas que o namorado apresentou, pôsteres de filmes que o namorado adora, as bebidas que ele bebe, as coisas que ele compra. Não tem fotos da família e das amigas pela casa. As coisas dela no armário dela.
Claro que NÃO SÃO SÓ COISAS: O namorado também apresenta pessoas, leva a lugares, fala do seu trabalho, escolhe as viagens, as posições na cama. Mas por coincidência não vai nos rolês dela, acha a balada dela um saco, os problemas de trabalho dela irrelevantes, não fica confortável perto das amigas ou colegas dela, muita “coisa de mulher”, prefere não se meter. Vamos falar do que o namorado gosta, do que o namorado precisa, do que o namorado quer falar e fazer.
Só comecei esse texto falando das COISAS porque coisas são fáceis de ver.
AMIGA, senta na sua sala e olha em volta. Vê se você ocupa o mesmo espaço que o seu namorado. Olha as suas coisas, as cores que te cercam. Pensa com sinceridade sobre o seu relacionamento e se seus gostos e necessidades têm o mesmo espaço pra existir. Se você tem o mesmo espaço que o seu namorado tem pra falar do que te deixa realmente feliz, brava, triste, com tesão, o que for. Pensa se o que vem de você é tratado com seriedade, com urgência, com respeito. O que o seu namorado faz PROATIVAMENTE pra te ver feliz? Porque só “não te tratar mal” não é o suficiente. Ser engraçado às vezes não é o suficiente. Ser carinhoso uma vez por semestre não é o suficiente. Eu sei que você passou por muito relacionamento abusivo, que você está exausta e que às vezes o mínimo parece suficiente. Mas você merece mais que o mínimo.


.
Esse texto é só um lembrete que muitas vezes não consigo dar pessoalmente: AMIGA, REIVINDICA SEU ESPAÇO. <3"

Iris de Miranda


Indiferença


Amanheci com aquele gosto amargo na boca e o medo latente nos olhos. Já me senti assim antes, confesso, mas é sempre como se fosse a primeira vez. Talvez a gente nunca se acostume a dizer adeus. Ao menos não às pessoas que amamos. Aquela velha queimação me fez uma visita, para me lembrar de que nunca estamos preparados ou calejados o suficiente para que uma desilusão amorosa não nos afete. Eu nunca aprendi a lidar com a indiferença, talvez porque eu nunca tenha aprendido a sentir isso em relação a alguém. A sua frieza me assusta. Tenho seguido em frente e conhecido pessoas mas não consigo me desvencilhar da nossa história, que era apenas mais um final comum até que eu derramasse nele todas as minhas expectativas e projetasse todas minhas frustrações e dependências. Eu sinto sua falta em todos os turnos, em tempo integral. Sinto falta de coisas que não chegamos a fazer. Não sei até quando, eu nunca sei, só queria que a sua indiferença não doesse tanto assim.



Com tantas flores para plantar no meu vazio, eu escolhi plantar frustração.
😔

Escrito especialmente para mim, descrevendo minhas fraquezas mais profundas e me emocionando. 


                "Começou bem desde criança, quando me conheci. Sempre quando lembro, quero esquecer, quero deixar o passado não existir. Tentei me apagar de uma época só para existir  em outra, e, foi o que vivi tentando. Nós nunca esquecemos do que é pregado dentro do nosso corpo, não mesmo. Mas sei que aqui dentro do meu fundo, onde só eu sei encontrar, exista uma razão pela qual me sinto tão assombrada.
                 Tenho nos olhos um pequeno expetáculo de mim mesma, e quando não sabia, simplesmente deixei todo esse show sem platéia. Minha vida, como a de muitos, não foi das melhores, mas verdadeiramente compreendi que precisava viver. Existem coisas nesse passado que também lembro mas não quero esquecer, que valeu tanto a pena pra hoje no meio do choro eu conseguir sorrir. Ele sentava do meu lado quase todas as noites para me ajudar a dormir, pois sempre me senti ruim.
                   Os espelhos da minha vida sempre quebraram quando inúteis, e quando ficavam amarelos não refletiam as coisas dolorosas que não queria observar. Era um caminho bem escuro dentro de mim, eu me matava para ganhar a vida e a vida me matava por não saber vivê-la.
                   Eu sabia que a vida era complicada, só não sabia a dor que iria sentir. Aconteceu tudo do pior jeito, o qual não imaginei, da forma que nunca planejei. Eu corria de mim, e, quando surtava, pensava até em perder as possibilidades que viriam, mas tudo por causa da confiança despejada em falsos jarros, pois eu regava mato pensando que fosse lírio.
                   Quantas vezes nessa época eu desejava alguém para cuidar de mim, não por fraqueza, mas por fragilidade sentimental. Quantas vezes também pensei e deduzi que a vida era uma pura desgraça que habitava meu coração. As energias das quais alimentei foram quase insuficientes para continuar. Morei sozinha, fiz quase tudo sozinha e quase ninguém se importou com isso, logo descobri outra coisa sobre a vida; ''As pessoas são ignorantes o suficiente para entender que seu estado sentimental está destruído''.
                    Me sentia em uma montanha tão alta, mas bem alta mesmo, daquelas que gelam até suas emoções, e nela sempre caía e voltava, bem infinito. Mas deixando as metáforas, sempre que abria a porta da minha casa eu ligava as luzes e era tão vazio saber que só eu estava ali, minha cabeça não aceitava nada daquilo, meu corpo desgastava todos os dias e nem entendia o que significava dormir.
                    Tenho ansiedade e tenho medo do passado, pois nunca o superei. Sei que quando acontecer, vou ler tudo que já escrevi, e com um sorriso no rosto vou me olhar no espelho me sentindo satisfeita em saber que sobrevivi ao empurrão da vida."
                  


                     


                     ''Sou quem escreve, mas quem termina não sou eu. E mesmo se soubesse o futuro, eu nunca saberia em qual você iria estar.''          
                                                                                                       Cleverson Benunes.

Abaixo da inscrição com o nome, os números indicam 00:03. Indicam a última vez em que ele esteve disponível. Nos tempos modernos, essa é a maneira mais doente que encontrei de me sentir próxima. Aguardo os números darem lugar a palavra "online". Não mando uma mensagem. Observo como se sentisse a presença dele.
Hoje é o quarto dia. Tenho contado desesperadamente como um viciado em químicos há quantos dias estou limpa. Fazem quatro dias que não falo com ele, mas provavelmente não vai durar. Sei a carga negativa que isso me traz, mas ainda assim não consigo me controlar.


No último domingo, eu dormi no seu peito. Poucas vezes eu adormeci assim. É claro que dormimos juntos por tantas outras milhares de vezes, mas na maioria delas nos abraçávamos diferente e eu nunca fui uma pessoa de sono fácil. Mas dessa vez eu me recostei e senti seu calor, seu cheiro exalou como se fosse a última vez, e as batidas do seu coração embalaram meu sono.
Eu pensei em te enviar esse texto; em seguida tomei um daqueles calmantes específicos antes que pudesse terminar de escrever, pra ver se o amanhecer podia fazer com que a minha ficha caísse.
Você nunca compreendeu a minha mania de romantizar os momentos mais simples e os mais íntimos, nunca entendeu que poetizar histórias faz parte de mim. Eu quis terminar de escrever esse texto e esperar que você admirasse os detalhes. Mas você nao o faria, agora, com a cabeça fria, eu sei.
Você, muito prático, eu, sempre romântica.
A manhã chegou, o texto ficou sem final, assim como todas as minhas histórias; que nunca se encerram por completo.
Eu estava indo bem; ou achava que estava. Talvez eu tenha me mantido ocupada para adiar o momento em que a ficha cairia, mas não o suficiente. Esse momento chegou rápido demais e com uma intensidade assustadora.


Precisamos falar sobre Relacionamentos Abusivos

Eu nunca tinha ouvido falar em relacionamento abusivo. Não sabia que me sentir daquele jeito - ficar mentalmente confusa, isolada e não ter discernimento entre atitudes boas e tóxicas - fazia parte de um quadro só: a violência psicológica.
Enquanto me relacionava com ele, me afastei de amigos e familiares, e passei a ocultar certas situações por que, no fundo, eu sentia que estava me sujeitando, me ridicularizando, e não queria me sentir ainda mais frágil e exposta aos julgamentos alheios. E me culpei por isso dia após dia. Justifiquei as atitudes dele e carreguei nas costas toda a culpa e o peso de um relacionamento fracassado por acreditar que aquilo era tudo que eu tinha, que era o melhor que eu poderia ter. Me tornei vítima de um jogo de manipulação extremamente recorrente sem me dar conta disso; Acatei cada agressão verbal, cada ofensa sutil, cada insinuação grosseira e me tornei vítima da minha auto-crítica.
Eu fui ao fundo do poço e foi então que a ajuda profissional me arrastou de lá e me trouxe a tona, me reabriu para o afeto das pessoas que realmente se preocupavam comigo. E foi quando eu finalmente retomei a minha saúde mental que eu consegui assimilar a situação: minha e de milhares de mulheres em todo o mundo.
Não, entender a situação nem sempre é suficiente para sair dela, pois é um processo longo e contínuo que pode compreender várias recaídas. Mas já é um grande passo.
Eu me afastei o suficiente para equilibrar a minha saúde, mas não tenho mais vergonha de assumir que estou no meio desse processo, lutando, buscando referências, buscando ajuda.
A representatividade funciona bem nesse caso também. Hoje, por acaso, eu vi numa rede social um grupo de mulheres falando sobre sinais de abuso. E, nada por acaso, uma frase presente em quase todos os depoimentos esteve presente alguns dias atrás em um discurso do agressor (entende-se como agressor qualquer forma de violência, seja ela física ou psicológica). Ele me culpou por estar sozinha. Disse que eu era uma pessoa "difícil de agradar" e que era preciso muito esforço para "não me fadigar". "Eu não sou difícil de lidar, XXX." Respondi. Mas estremeci. Duvidei de mim, e é assim que essa violência nos penetra silenciosamente. Mas ao encontrar nessas mulheres o apoio e a conscientização eu me salvei de pular novamente nesse precipício. Ao ler a história de superação de cada uma e as ver livres de culpa, eu tirei um peso das minhas costas.
Hoje eu sei que não sou mais fraca ou mais complacente por ter "permitido" que ele me ferisse. Sei que não sou "louca", "histérica" e "chata" por ter cobrado ou reclamado da situação. Eu sei que, mesmo com meus defeitos, eu não fui culpada pelas vezes que ele me abandonou. Eu não "pedi" para ser traída. Eu não sou fraca por ter encontrado alguém que massacrou conscientemente todos os meus bons sentimentos.
Eu sou é muito forte, monámour. Eu reaprendi a me amar depois dele insistentemente jogar minha auto estima na lama.
E quando ele me disser novamente que eu "tenho a mente fraca", não, eu não vou acreditar. A minha mente é muito forte. Muito mais forte que a dele, aliás, que precisa manipular para se reafirmar, diminuir para crescer, controlar para se libertar, agredir para se empoderar.
Eu vivi um relacionamento abusivo.Isso me deixou marcas e cicatrizes, mas eu estou de pé, e, acredite, eu não perdi a capacidade de amar.

Eu quero fugir de você, ignorando o fato de que você nunca esteve me perseguindo. Eu me sinto uma ferida exposta e me encolho, me recolho, me escondo como se você quisesse me encontrar, me ferir, me sangrar. Mas a verdade é que essa fuga é direcionada a mim mesma. Eu busco incessantemente por uma saída de emergência desse labirinto que adentrei quando te conheci, uma maneira veloz de me livrar desse turbilhão de curvas e sentimentos que invadiram a minha alma naquele instante em que me apaixonei por você.
Estou cansada de fantasiar a sua presença em tudo que eu faço, de deixar você controlar a minha vida, mesmo que inconscientemente, cansada de não pertencer mais a mim. Esgotada de fugir de situações imaginárias, de não conseguir me forçar a entender que você simplesmente não se importa. Então eu tento me isolar do mundo, mas eu sei que nunca adianta, pois você está sempre aqui, dentro de mim.


"Construí uma casa no espaço, me escondi de você, mas se eu deixo as portas abertas você nem vai saber."

Tudo bem ter uma recaída, não é?
Quero dizer, tudo bem trair meus princípios de novo,
tenho tantos amanhãs pra
continuar tentando.
Não é?


O fim

Eu relutei em escrever sobre nosso fim. Eu nunca soube bem como descrever nada entre nós. Nossa relação, nossas incompatibilidades, tudo sempre foi um incógnita em meu peito.
E agora, igualmente não sei como encarar um fim tão indefinido, menos ainda explicá-lo em palavras.
Me envergonho em assumir que quando tudo começou, não era exatamente você que eu enxergava, demorou um tempo até que eu pudesse assimilar e parar de visualizar outra pessoa em seus olhos. Mas eu enxerguei você. Sim, com o tempo eu aprendi a gostar das suas particularidades, do seu maxilar quadrado e das suas mãos calejadas.
Eu não te amei, anjo. Mas eu nutri por você um sentimento igualmente puro que me levou a fazer da minha vida sua. E vice versa. Você também não me amou, eu sei que não. Talvez por isso nossa separação pareça tão insossa, tão previsível.
Mas eu sinto a sua falta. Sinto falta da sua casa que já era tão minha, do meu toddynho na geladeira, do cheiro dos seus lençóis. Sinto falta do seu queixo nas minhas costas nas noites frias, de me embolar com você no carpete até ficar sem ar, do cafuné gratuito numa tarde de domingo.
Vez ou outra ainda nos encontramos. Conversamos sobre a vida, as pessoas, sobre nós. Sem brigas, sem cobranças, sem pudor. O nosso fim não é exatamente um fim. Ás vezes toco seu interfone de madrugada, bêbada. Você me acolhe, me devora, me deixa dormir até mais tarde. Eu prefiro acreditar que somos adultos suficientes a dizer que, talvez, em outras circunstâncias, teríamos nos amado e construído uma história eterna.
Você diz aceitar com naturalidade quando eu encontrar um outro alguém, eu já não sei como meu coração vai reagir. Sou ciumenta, você sabe. Isso faz de mim egoísta?
Mas eu sei que não há mais possibilidade. Não de dividir uma vida. Não de seguir adiante. Nós não fomos feitos um para o outro e não vou fingir que não fiquei triste. Acho que há sempre um ar melancólico quando um relacionamento acaba. Mas aceitei em paz as escolhas do destino.
Na minha agenda, seu nome ainda consta como "Anjo". E não acho que eu deveria mudar. Não tenho raiva, não tenho mágoa, não tenho culpa. Você vai ser pra sempre especial.


Toda sexta feira eu bebo doses de coragem servidas em copos americanos, me embriago, conto as mesmas histórias e finjo estar feliz. Às duas ou três da manhã eu entro em meu carro e prometo ir pra casa. Mas sempre acabo tocando o interfone da casa dele e, com uma voz culpada, peço "abre o portão". A gente se devora e adormece, com exaustidão. Quando amanhece, eu durmo por mais algumas horas e ele se despede com doçura. Eu volto pra casa e é só isso.
Foi só isso que sobrou de nós.

Não se pode confiar nos olhos quando a imaginação está fora de foco.

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