Você me faz sentir como se viver a minha vida fosse um crime. Como se estar solteira fosse um estado errado por si só. Me faz acreditar que qualquer gesto, palavra ou expressão são errados. Que qualquer sorriso é fora de hora, e que qualquer lugar não é adequado.Você me faz sentir culpada por viver. Você faz com que eu me sinta uma puta só por existir. Faz com que eu me imponha uma centena de regras imaginárias doentias, que só me destroem aos poucos. Você me faz acusações e de tanto descrever a imagem horrível que você inventa, me faz vê-la no espelho também. Você não proíbe, mas julga e condena, e as suas críticas me limitam, a sua pena me desespera. Você me acrescenta dezenas de paranóias, e faz com que eu me sinta não aceita no mundo.
O seu machismo me ataca, suas palavras me magoam, suas atitudes me adoecem. Talvez não seja de propósito, mas sua personalidade me agride. 
Eu questiono tantas coisas, me questiono, questiono você, questiono o mundo; mas no fundo sei que só há um questionamento que deveria ser feito: Por que eu me deixo atingir?





"Apenas querendo extinguir a humanidade depois de confirmar como as pessoas, no geral, são babacas.
Acabei de escutar uma enquete no jornal que fundamenta que grande maioria das pessoas acredita que as mulheres que se vestem com roupas que mostram o corpo estão "pedindo" para serem violentadas e/ou merecem tal ato. E mais, que se as mulheres soubessem "se comportar" diminuiria significativamente o número de estupros.
Não conseguiria não expressar minha revolta. Uma pessoa que anda semi nua MERECE ser violentada? Em quanto absurdo a sociedade consegue acreditar?
Uma mulher -assim como qualquer outra pessoa- tem o direito de fazer as suas escolhas e lidar com as consequências delas. A maneira de se vestir ou se comportar faz parte dessas escolhas, mas nunca -NUNCA- se pode assumir um estupro como consequência do seu modo de vida. Jamais isso poderia ser tomado como justificativa ou convite para uma agressão ou qualquer coisa do gênero. Assédio, estupro e violência são crimes e partem da cabeça doentia de quem os pratica. E é incrível ver como as pessoas conseguem ser ridículas. Certa vez li uma história rude, porém extremamente sincera. E dizia que uma mulher pode "dar" para todos da cidade, se quiser, isso continua não dando o direito de alguém forçá-la a ter relações com quem ela não quer. Dizia que ela pode andar nua e isso não dá carta branca para ser tocada sem permissão. NADA JUSTIFICA., compreendem? NADA.
Quanto nojo. Até quando?"


Solange Ramos

É perturbador. Tenho começado a perder o controle sobre a minha própria consciência. É simplesmente assustador.
Eu poderia passar dias seguidos tentando explicar essa sensação. E ninguém compreenderia. Todo ódio, toda mágoa, todo medo, toda confusão dentro de mim. Toda tristeza, toda insatisfação, toda rejeição, toda solidão. Tenho pensado coisas horríveis e não sei bem se é culpa minha ou não. Mas eu me culpo, sempre. Por tudo. Recentemente tenho visto sombras pelos cantos, sombras de mim, o lado mais escuro da minha alma. E, sim, eu procuro diversas maneiras de chamar atenção. Infantil? Não sei. Meus olhos imploram por socorro. Só queria que alguém reparasse. Me amedronta ver meus pensamentos tomando um rumo descontrolado, traçando lógicas ilógicas, me torturando, e não conseguir voltar a realidade. Sozinha não tenho mais forças pra me salvar de mim; perturbada demais para conseguir raciocinar com clareza. Eu assumo: preciso de ajuda. Eu QUERO ajuda. Qualquer ajuda que possa me impedir de continuar caindo nesse buraco negro. 

Essa sensação... Eu nem sequer sabia que podia lidar com ela. Ser enganada tão torpemente. Ver as mentiras mais toscas e continuar fechando os olhos. Ser magoada e ferida e continuar aceitando os espinhos ao invés das rosas. 
Me sinto péssima por perceber que você afeta diretamente o meu humor e ridícula por deixar que você me afete dessa maneira. Percebi o quão calculista você é e o quanto se esforça para me fazer duvidar do mundo a minha volta e acreditar em você. E, ridiculamente, ainda continuo aqui. Não sabia que podia lidar com isso, viver com isso, aceitar essa situação. Sempre ouvi histórias e é sempre tão fácil aconselhar. Mas se desvencilhar vai muito além.

" É tão difícil entender que eu já não vejo em você aquele alguém que eu conheci, por quem me apaixonei... Já não consigo suportar você querendo me tocar.
O meu desejo, a sua voz, o que aconteceu? (...) "
 ♪ 
Eram os mesmos olhos, mas não era o mesmo olhar. Eram as mesmas bocas, mas não era o mesmo beijo. Nos tocávamos em busca da magia, mas nada acontecia. Por longos minutos permanecemos imóveis nos braços um do outro, respirando lentamente, recordando momentos de quando tudo era perfeito. O vazio pairava no ar. Parecia um tempo tão distante, e agora havíamos nos tornado desconhecidos um ao outro; e nada podia mudar isso.
Eu podia enxergar a sua frustração, que, no entanto, não era maior que a minha. Os motivos que nos levaram ali eram claros, e não faziam parte de um desejo físico. Fomos atraídos pelo desejo insano de retomar um amor que o tempo matou.
Eu ainda gostava dos cabelos dele, e da curva que faziam sobre a nuca. Mas não sentia mais ânsia de tocá-los. Ele ainda gostava dos meus olhos, mas eu sabia que já não se hipnotizava por eles. E eu sequer sabia se ele havia trocado de perfume. Não fazia diferença, porque o cheiro do qual eu me recordava nunca mais seria igual. Era cheiro de paixão.
Nos despedimos com um sorriso cordial, um beijo superficial. Era estranho pensar nas coisas dessa maneira e eu agora sei que nos enganamos todo esse tempo. Fomos traídos pela lembrança. Enganados pela saudade de uma história que ficou pra trás.
Sempre terei saudade do que fomos um dia. Mas agora sabemos com clareza que não há mais como sermos aquela explosão de emoções que um dia tanto nos enlouqueceu.


Você pode até fechar os seus olhos para as coisas 
que você não quer ver, mas não pode fechar os seu coração 
para as coisas que não quer sentir. 

( William Shakespeare )

O teatro da moça banal

" Olho pela sacada da minha casa e vejo você chegando. Corro para o enorme espelho do meu quarto e repito em mantra: eu não gosto dele, eu não gosto dele, eu não gosto dele.
Tenho quase 30 anos e consegui estragar todos os meus relacionamentos simplesmente porque gostei demais das pessoas. Dessa vez quero acertar, por isso combinei comigo que, apesar de estar morrendo por você, não gosto de você. Espero você tocar a campainha olhando o escuro pelo olho mágico. Meu coração dispara, mas eu mando ele parar. Estraguei todos os meus relacionamentos de tanto que meu coração dispara. Dessa vez quero acertar, dessa vez quero que alguém fique comigo ao menos um mês sem me achar louca. Cansei de sempre ser a garota louca que espanta todo mundo.
Você tem cheiro de roupa limpinha com mente suja e eu quero te rasgar inteiro. Mas apenas te dou um beijinho no rosto. Preciso me comportar. Ser como as minhas amigas que se dão bem e arrumam namorados apaixonados. Há anos que eu rasgo os rapazes, enlouqueço, me apaixono, devoro. E termino sozinha no Espaço Unibanco, querendo morrer enquanto olho sem fome para o pacotinho com dez minipães de queijo.
Chega. Dessa vez vou acertar. Não vou chorar na sua frente porque acho um absurdo estar viva, não vou pirar porque deu quatro da manhã e eu tenho a impressão de que a noite é uma coisa de pirar a cabeça. Não vou beijar sua nuca no meio da noite e gostar de você como naquela canção do Legião, que diz que é como se não houvesse amanhã. Eu gosto das pessoas pelo prazer de gostar e não porque deu tempo de gostar delas. E ninguém entende nada. E todo mundo se assusta. Mas prometo ser uma mulher normal dessa vez.
Você não sabe porque eu não te atendi o dia todo. Eu te conto que é porque estava muito ocupada. Minhas amigas sempre usam essa desculpa e sempre namoram. Eu era a louca que nem esperava os caras ligarem e já ligava pra eles.
Mas dessa vez tô ignorando o telefone. Mesmo que ele fique no meio das minhas pernas o dia todo esperando um telefonema seu. Mas você jamais vai sabe disso.
E jamais vai saber mesmo, sabe por quê? Porque você é o primeiro homem do mundo que não sabe que eu escrevo sobre a minha vida. Chega. Todos os homens morrem de medo disso e eu não agüento mais essa porra dessa solidão que me dá toda vez que procuro um pouco de amor nos beijos e abraços curtos que alguém me dá só pra poder transar depois. Chega.
Aí você fala que vai cortar o cabelo e eu quero implorar pra você não cortar. Porque esses seus cachos acabam comigo. O cheiro do seu cabelo. A maneira descabelada que você usa pra parecer arrumado. E eu amo a sua cara de argentino e que você odeia os argentinos. E eu amo como a sua calça nova cai bem em você e como você fica elegante de chinelo. E eu quero te pedir pra deixar tudo como está e não cortar meus cachos prediletos de todos os cachos. Você me salvou. Eu não agüentava mais pensar nos mesmos caras que eram sempre os mesmos caras. Você é novinho em folha e eu sou louca por você. Mas tudo isso eu não te conto pra você não achar que eu sou louca. Chega. Dessa vez vou fazer tudo certo.
Já é a sexta vez que você vem à minha casa e até agora nada. Não transei com você. Apesar de pirar na sua barriga e na sua nuca. E de querer eternizar o seu cabelo e o seu nariz feio. E de achar que o seu cheiro é o cheiro de uma nova vida que eu estava precisando tanto. E de eu te adorar principalmente porque eu já nem sabia mais como era adorar alguém novinho em folha. Não, não transei com você. Chega de transar sonhando em andar de mãos dadas. Agora vou andar de mãos dadas pra ver se vale a pena transar. Porque dessa vez vou fazer tudo direito. Chega.
E você nem sonha que eu sou meio bipolar, quero ser mãe e acredito no amor da vida. Acredito no amor pra sempre. Acredito em alma gêmea. Você nem sonha com essas coisas porque só conversamos coisas leves e engraçadas.
Chega de ser a louquinha intensa. Maior legal transar e se divertir com a louquinha intensa, mas quem agüenta o tranco de me assumir, de me amar?
Ninguém. Chega.
E eu corro no espelho de novo e repito cem vezes que não gosto de você. Não gosto de você. Não gosto de você. Porque se eu gostar de você, eu sei que você vai embora. E eu simplesmente não agüento mais ninguém indo embora. Porque nessa vida maluca só se dá bem quem ignora completamente a brevidade da vida e brinca de não estar nem aí para o amor. E eu preciso me dar bem e por isso ignoro minha urgência pelo amor. Porque, se você sentir urgência em mim, vai é correr urgente daqui. Chega.
E você implora pra gente finalmente transar. Já é a sexta vez que você vem aqui. E eu quero muito. Muito. Porque você tem a voz mansinha e só fala coisa inteligente. E você é cínico sem ser maldoso. Mas não, não. Estou morrendo de vontade de ser eu, mas ser eu só tem me feito perder e perder. E eu quero ganhar. Só dessa vez. Chega.
E eu quero me dar de bandeja pra você. E dentro de mim uma voz diz: pira Tati, enlouquece. Vive um dia e já está bom. Depois eu demoro semanas pra me levantar, mas pelo menos fui intensa e vivi um dia. Mas não agüento mais nada disso. Quero viver uma história. Por isso dessa vez não vou transar e nem gostar de você. Tchau. Peço pra você ir embora. E você jura que eu não estou nem aí pra você. Melhor assim. Dessa vez quero fazer tudo certo. Chega de fazer tudo errado. E eu te espio da janela, indo embora. E quero berrar o quanto gosto de você. E te pedir em namoro. E rasgar sua roupa. E te comer. E dormir enroscada no seu cabelo. E te mandar flores amanhã. E mais uma vez agir como um homem. Mas eu cansei de ser homem. Chega de usar o homem que eu não sou pra ferrar comigo. Eu sou menina. E meninas só transam depois do sexto encontro. Ou depois que o cara fala que gosta delas. Dessa vez vai ser assim. Chega.
E se você não se apaixonar por mim mesmo com todo esse teatro de moça banal que eu estou fazendo, vai ser a prova de que eu precisava pra saber que você realmente vale a pena. "

Tati Bernardi

Fui eu a maior lesada dessa história toda. Aliás, a única. Por mais que eu possa ter dito palavras grossas eu sei que não faz tanta diferença nessa história. Não te atingiu realmente mas te deu a oportunidade de me pintar como um monstro. Eu me excedi por estar no meu limite emocional, e você usou isso para sair por cima, sem sequelas. Enquanto eu, com minhas feridas expostas, via você tripudiar sobre elas.
Você sempre supõe que eu faço tudo errado. Que sou chata, que te sufoco, que eu faço você se cansar de mim. E eu me deixo levar pela culpa, penso no que poderia fazer para te manter o mais confortável possível. Sempre foi assim.
Só que na maioria do tempo eu me esqueço de como você pouco se importa em me deixar bem. Me esqueço de como eu me magoo e me destruo levando as coisas dessa maneira, e faço questão de fechar os olhos pra tudo de ruim que você me provoca. Você supõe que eu te sufoco; mas é você quem me dá esperanças, me liga e me faz acreditar em coisas, sentimentos e envolvimentos inexistentes. É você quem faz convites e me ilude com suas mentiras, quem me propõe uma liberdade que eu não posso ter. Você supõe que sou chata, mas diz gostar de mim. E na somatória final, a lesada sempre sou eu.
Você vem de vez em quando, me fere mais um pouquinho, e depois passa a maior parte do tempo jogando álcool nas minhas feridas. Me desinfeta, me desacredita, me faz enxergar a realidade, mas me arde e me dói tanto... Aí você vem. E eu, em troca de um alívio, me deixo enganar. E você, de um jeito que só você sabe, me faz uma ferida nova de um jeito lindo. E vai embora intocado enquanto eu fico sangrando e procurando uma solução.

Não se pode confiar nos olhos quando a imaginação está fora de foco.

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