Ele tem o cabelo tão negro e macio que parece irreal. Aquele sorriso é perfeito por natureza, dono de uma hipnose insana. O contorno do rosto, os olhos, alguma coisa nele me chama atenção. Mas tem aquela estranha sensação de que algo está errado, e ainda assim insisto em permanecer aqui.
Eu não estou exatamente apaixonada, mas gostaria de estar. Parece uma oportunidade e tanto de seguir em frente, de viver uma coisa diferente que não as antigas mágoas já tão repetidas. Mas não me sinto inteira; Uma parte de mim grita "vai garota, anda, se joga", e outra parte quer que eu permaneça indiferente, dormente, isenta de qualquer sensação mais intensa.
Ele pediu, tímido, "namora comigo?", e essa frase, de repente, já não fazia sentido algum. Há tanto tempo eu já não sei como é estar de verdade com alguém, não sei se ainda sou capaz. Prometi pensar, e tenho pensado -juro-. Mas não consigo ter uma resposta.
Já cansada de trazer o passado em cada gesto, penso em como seria bom ter uma nova história. Ter um presente pra viver. Mas em seguida vem o medo, paralisante.
Talvez eu mereça uma chance (Talvez nós mereçamos). Quem sabe todos mereçam sempre novas chances e novas tentativas, afinal, o tempo passa e a vida só para quando a morte chega. Nesse intervalo as chances vem e vão, basta agarrá-las. Tudo sempre pode mudar - talvez não para melhor, mas sempre diferente -, e não se pode desistir de agarrar a chance certa.
Ele me encanta, é verdade. Acho que posso pensar melhor sobre apostar algumas fichas nesse encanto.

Insensível

Não sei se é culpa das mágoas ou se é mesmo da rotina diária de um coquetel de remédios, mas dentro de mim tudo está dormente. Sem frio na barriga, sem dor. Parece que uma casca dura se formou e as únicas coisas que conseguem me atingir são as que já estão do lado de dentro. As velhas mágoas, as paranoias de sempre. O que acontece no presente não me afeta, e isso me assusta. Que tipo de monstro eu me tornei? Finjo me preocupar, mas tenho noites tranquilas de sono. Vazio. O mundo está caindo ao meu redor e eu simplesmente não consigo sofrer com isso. Acho que já não estou mais tão normal. Me tornei brutalmente egoísta e sei que tem algo muito errado dentro de mim. 

Banquete


É que a gente tá acostumado a ser tão mendigo, tão maltrapilho, que quando chega alguém que dá mais que migalhas você primeiro desconfia, dá um passo pra trás. É difícil se convencer que se pode ser tão mimada assim. Dá um pouco de enjoô no estômago, tipo quando se passa dias comendo apenas miojo e pipoca e de repente bate uma lasanha bem temperada. Dá até tontura. Mas satisfaz. O organismo leva um tempo pra aceitar comida boa de novo. E aos pouquinhos você vai se nutrindo e o corpo fica de pé. Saudável.
Ele é lasanha e o cardápio todo, e não dá pra solver tudo num dia só. Não sei se fico feliz ou desesperada, mas dá um puta ego ser tratada como uma princesa e eu tô tentando me habituar. Já tinha até me esquecido de que mereço ser bem cuidada e viver essa paz. 

Não se pode confiar nos olhos quando a imaginação está fora de foco.

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