Tudo bem ter uma recaída, não é?
Quero dizer, tudo bem trair meus princípios de novo,
tenho tantos amanhãs pra
continuar tentando.
Não é?


O fim

Eu relutei em escrever sobre nosso fim. Eu nunca soube bem como descrever nada entre nós. Nossa relação, nossas incompatibilidades, tudo sempre foi um incógnita em meu peito.
E agora, igualmente não sei como encarar um fim tão indefinido, menos ainda explicá-lo em palavras.
Me envergonho em assumir que quando tudo começou, não era exatamente você que eu enxergava, demorou um tempo até que eu pudesse assimilar e parar de visualizar outra pessoa em seus olhos. Mas eu enxerguei você. Sim, com o tempo eu aprendi a gostar das suas particularidades, do seu maxilar quadrado e das suas mãos calejadas.
Eu não te amei, anjo. Mas eu nutri por você um sentimento igualmente puro que me levou a fazer da minha vida sua. E vice versa. Você também não me amou, eu sei que não. Talvez por isso nossa separação pareça tão insossa, tão previsível.
Mas eu sinto a sua falta. Sinto falta da sua casa que já era tão minha, do meu toddynho na geladeira, do cheiro dos seus lençóis. Sinto falta do seu queixo nas minhas costas nas noites frias, de me embolar com você no carpete até ficar sem ar, do cafuné gratuito numa tarde de domingo.
Vez ou outra ainda nos encontramos. Conversamos sobre a vida, as pessoas, sobre nós. Sem brigas, sem cobranças, sem pudor. O nosso fim não é exatamente um fim. Ás vezes toco seu interfone de madrugada, bêbada. Você me acolhe, me devora, me deixa dormir até mais tarde. Eu prefiro acreditar que somos adultos suficientes a dizer que, talvez, em outras circunstâncias, teríamos nos amado e construído uma história eterna.
Você diz aceitar com naturalidade quando eu encontrar um outro alguém, eu já não sei como meu coração vai reagir. Sou ciumenta, você sabe. Isso faz de mim egoísta?
Mas eu sei que não há mais possibilidade. Não de dividir uma vida. Não de seguir adiante. Nós não fomos feitos um para o outro e não vou fingir que não fiquei triste. Acho que há sempre um ar melancólico quando um relacionamento acaba. Mas aceitei em paz as escolhas do destino.
Na minha agenda, seu nome ainda consta como "Anjo". E não acho que eu deveria mudar. Não tenho raiva, não tenho mágoa, não tenho culpa. Você vai ser pra sempre especial.


Toda sexta feira eu bebo doses de coragem servidas em copos americanos, me embriago, conto as mesmas histórias e finjo estar feliz. Às duas ou três da manhã eu entro em meu carro e prometo ir pra casa. Mas sempre acabo tocando o interfone da casa dele e, com uma voz culpada, peço "abre o portão". A gente se devora e adormece, com exaustidão. Quando amanhece, eu durmo por mais algumas horas e ele se despede com doçura. Eu volto pra casa e é só isso.
Foi só isso que sobrou de nós.

Nunca foi amor, mas insiste tanto em ser

"Estava a pensar em não vir. No fundo, estou a pensar nisso até agora. Mas fico aqui, com cara de taxo, olhando as tuas coisas bagunçadas, os meus neurônios bagunçados, o meu coração bagunçado, o meu vestido bagunçado e tudo que estava quase arrumado em mim se confunde num segundo quando ele se aproxima como quem já aceitou casar comigo, mas não disse “sim”. Apenas me mira com sorriso de bobo me revirando ainda mais. Uma grata desgraça.
Eu não queria vir. Na verdade, eu queria. Eu não queria era vir aqui, me apaixonar mais ainda e ter que ir embora sozinha. Porque sempre que venho, ele entra em mim, mas não mora. Ele me abraça, mas não me prende. Ele é meu par, mas não meu companheiro. Ele se deita, mas não fica. E eu continuo aqui sozinha mesmo sendo dois. Solidão besta. Não é fácil gostar dele. Já quis o matar tantas vezes. Mas ainda não morri.
Mas daqui a pouco, depois de gozar em mim como se eu tivesse pedindo aquilo como um prêmio ou coisa assim, ele vai se virar para o lado, olhar no relógio umas quinhentas vezes, o celular vai tocar sem parar e, logo, logo, ele arrumará algo pra fazer e ir embora. Eu conheço o seu jogo. Vai dizer que precisa salvar o mundo, buscar a tia avó no hospital, ver futebol, reencontrar um amigo ou buscar a prima na faculdade, sei lá. Só sei que ele vai. E eu queria estar aqui quando ele voltasse. Eu queria que eu fosse o motivo para ele voltar. Queria que eu fosse seu mundo, sua tia avó, seu futebol, sua amiga, sua prima, sua puta ou coisa assim.
Juro que vou embora antes mesmo dele entrar no banho. Mas ele sem camisa parece um canto sagrado. Mesmo com as leves marcas de queimadura na barriga só porque não sabe nem fritar um bife sem se machucar. Ele me pede 'faz-um-lanche?' e eu já proponho banquete nupcial. Ele me pede umas horas no dia e eu já quero décadas juntos. Ele me pede um tiquinho de qualquer coisa e eu já venho com temporadas completas. Deve ser isso. Meu erro é mergulhar de cabeça, enquanto ele ainda molha os tornozelos. Quero saltar do avião e ele deseja apenas uma companhia para quando estiver nas nuvens. “Eu quero meter”, ele diz. “Eu quero te ter”, penso.
Nunca foi amor, mas insiste tanto em ser. "



Suzana Moreira

Encontro

Assim que estacionei, de longe visualizei seu vulto. Alguma coisa se contorceu no meu estômago e só então me dei conta do quanto estava nervosa. Era ridículo isso; minhas mãos tremiam violentamente, e eu sei que você percebeu como aquele encontro me afetava.
Conversamos por alguns segundos, ou minutos, ou por uma hora, não sei. E a verdade é essa: quando se trata de você, eu nunca sei de nada. Não sei o que sinto, o que é permitido, o que é real. Perco um pouco a noção entre presente e passado e me afogo nos meus próprios anseios.
Ficamos ali falando sobre assuntos superficiais e fugindo quando nossos olhares se encontravam. Risos de nervoso entrecortavam o silêncio quando as palavras acabavam.
Eu não sabia mais que dava pra ser assim... O que me recordava (e esperava) de nós era tão turbulento, tão conturbado, que nossa calmaria me surpreendeu e retocou sua imagem dentro de mim. Você estava ali, na minha frente, e eu não tinha ódio, não tinha mágoa, não sabia o que dizer. Era apenas uma pessoa normal reencontrando um alguém incrível.
Quando saímos dali, nossas bocas se encontraram automaticamente num beijo desesperado e eu soube que o que eu senti por você nunca teve fim. Eu senti seu peso em mim e suas mãos no meu cabelo, o desejo brotou mais forte que nunca e seu cheiro trouxe à tona todas as nossas noites, nosso encaixe, nosso suor. Quando nossos corpos se tocam, eu quase posso jurar que uma química única paira no ar.
Mas no meio dessa nuvem, como no fim repentino de um sonho, você se foi. 
Continuo esperando uma chance de ver transbordar aquele vulcão que acordamos com esse encontro, mas por mais que eu tenha acreditado que minha presença transformaria algo em você, é uma espera unilateral.
Confesso que tive esperanças de que você não conseguisse se afastar depois de sentir meu gosto. Esperanças de que relembrar nossa história despertasse em você qualquer coisa que fosse tão forte quanto o que senti todos esses anos.
Mas a verdade toda é que preciso parar de romantizar coisas que não tem nada a ver com amor. A sua partida é só a sua partida.
Gradativamente, a minha saudade aumenta a cada dia, e a lembrança dessa noite se torna cada vez mais forte. Quase posso sentir sua presença quando me deito para dormir. 
Sinto vontade de sentir seu corpo em mim, suas mãos na minha cintura, seu hálito no meu rosto. Vontade de pular num abraço forte, de acordar olhando pros seus olhos cor de mel. Só aumenta meu anseio de apertar a sua mão durante um filme, de dançar com meu corpo colado no seu, de ouvir seu riso sufocado pelas minhas cócegas.
Todo o desejo que sinto tem a ver diretamente com o amor que tenho por você.
E agora, mais do que nunca, ele só aumenta.

Não se pode confiar nos olhos quando a imaginação está fora de foco.

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