17 março, 2017



Ele é lindo, sim ele é. Me olhava de um jeito apaixonante e me apertava nos braços quando me via - em qualquer lugar a qualquer hora -. Ele ria e cantava comigo como se fôssemos duas crianças, me mandava bom dia de manhãzinha e me enchia de beijos a noite.
E ele quase me enganou. Com aquela voz doce e aquele sorriso irresistível, eu quase me perdi de paixão.
Mas esse não é quem ele é. Eram truques e eu estive perto de cair neles. Por sorte eu aprendi a identificar detalhes, e foram eles quem mataram todo o encanto que ele havia me causado. Na mesma proporção que chegou o encanto o asco tomou o seu lugar.
Ele é só mais um cafajeste entre tantos.


20 fevereiro, 2017

Eu tenho uma relação doentia com o passado. Eu transformo em tormento até mesmo a melhor das lembranças, eu não sei sentir saudade sem melancolia. Todas as minhas memórias são carregadas de arrependimentos, saudosismo ou mágoas.


30 janeiro, 2017

Um pedaço seu

Não importa onde eu vá, alguém sempre tem um pedacinho seu.
A expressão de olhar, a barba, a boca, o jeito manso de falar. Alguém tem suas manias, seus defeitos, seu jeito arrebatador. Sempre tem um pouco de você em cada esquina que eu piso, em cada corpo que encontro, em cada história que vivo.
Não sei até quando estou fadada a viver essa maldição, até quando os traumas vão me acompanhar, mas sua presença não para de me perseguir. Eu fujo das pessoas porque elas me lembram você, mas as semelhanças não param de aparecer... Talvez esteja só dentro de mim, talvez ele não tenha o timbre da sua voz, talvez aquele outro não tivesse a boca assim tão parecida com a sua, talvez as barbas sejam mesmo todas iguais... Não sei.
Mas não quero mais lidar com a sua presença imaginária, com os mesmos medos e os pré-julgamentos que são arrastados pela lembrança do passado. Estou cansada de estar aprisionada a reviver as dores que sua existência me deixou. 



"Memórias não são só memórias, são fantasmas que me sopram aos ouvidos coisas que eu nem quero saber..."

14 janeiro, 2017

Final


Fiquei três dias sem medicação pra que eu pudesse chorar. Parece meio ridículo querer chorar, mas engolir toda a dor calada é muito mais cruel. 
Estou cansada de sobreviver. Os remédios evitam que eu entre em crise, seguram meu choro, minha palpitação, meus gritos, mas os remédios não me preenchem. Eu tentei tanto acreditar que tinha solução, acreditar que tudo não tinha passado de uma fase ruim, mas não dá pra ignorar o que já nasceu predestinado dentro de mim.
Estou cansada dessa sensação de dormência que todo esse controle médico trás. Eu quero liberdade, mesmo que ela me custe minha vida. Não quero provar que sou forte e cogitar sempre continuar por motivos alheios. Eu não quero continuar porque isso nunca vai parar. Já estou velha demais pra acreditar que, de alguma maneira mágica, tudo dá certo no final. O final já chegou.
Há três dias não tomo minha medicação e você pode acreditar que é estupidez, mas ninguém jamais vai entender como é precisar sair do piloto automático e respirar pra tentar entender realmente a situação.
Não é como se tivesse um motivo: não há um coração partido, um problema financeiro ou uma briga entre amigos que justifique o que sinto. Não há nada latente ou que possa ter despertado tudo isso. Simplesmente está aqui. Um vazio imenso e uma angústia paralisante. Uma insatisfação pessoal que não tem cura. A ausência de sonhos, de desejos, de boas memórias.
Eu não quero conhecer a praia, e também não quero me casar, nem ter filhos. Eu não quero aprender um outro idioma ou ir pra outro país. Não quero ser famosa e nem quero mudar o mundo. Nada existe pra mim.
Eu passei 20 horas dormindo e 3 horas ininterruptas chorando. Eu só quero que tudo acabe pra sempre. Não quero mais tentar.

27 dezembro, 2016

AA


Eu quase cheguei lá. Por pouco não cheguei aos 15 dias mas tive que reiniciar a contagem.
No auge da embriaguez lá estava eu, mais uma vez, tocando seu interfone e perdendo a sensatez. Mais uma vez, como um viciado em químicos, eu me arrependi no dia seguinte. Recomecei. Sempre há tempo, não é? É o que dizem para os Apaixonados Anônimos.

Não sou viciada em amores. Sou viciada em obsessões;


"Por amor as causas perdidas"


Não adianta você me olhar torto e nem me encarar na rua. Não vai funcionar. Nem precisa me mandar mensagem com uma desculpa esfarrapada pra puxar assunto comigo.
Também não vai resolver você me implicar e jogar meu nome nos grupos em comum. Eu não ligo. Você sabe, eu te disse, eu nunca tive saudades de você. Não tive saudades da pessoa que você era e quem você se tornou agora é um estranho pra mim, então esquece todo esse joguinho babaca e inútil e volta pra sua vida tosca e fútil.
Eu não sinto mais tesão por você, garoto. É isso. Eu não te desejo, não, nem por um segundo. A sua presença no mesmo ambiente que eu não me faz a mínima diferença.
Eu realmente não sei em que momento você se tornou esse cara do qual as pessoas costumam ter nojo. Eu não me lembro mais de como você era antes, mas não faz diferença. Só para que tá feio.

19 dezembro, 2016

Eu não seria capaz de contar quantos livros já li durante toda a minha vida.
Comecei bem cedo, ainda criança, quando a professora os colocava em cima da mesa e mandava que escolhêssemos; eu não escolhia pelas gravuras, como as outras crianças, eu lia a primeira e a última frase até que alguma despertasse meu interesse. Assim que tive autonomia para ir à biblioteca, eu o fazia diariamente. Me lembro bem do corredor grande com pisos vermelhos que levava à biblioteca, e de como a luminosidade era boa quando me sentava no chão. Mas ninguém gostava da menina que passava os recreios sentadas no corredor com um livro no colo, então passei a escolhê-los com pressa, guardar na mochila e ir para o pátio. Então lia em casa, fissurada, completamente absorta.
Eu sempre achei que os livros são como pássaros: Você não pode simplesmente querer possuí-los pra sempre por puro egoísmo. Eu gostava de imaginar quantas mãos já os tinham tocado, e quantas ainda iriam tocar. Me extasiava com as assinaturas na capa de pessoas que já os tinham levado pra casa.
Sempre acreditei que se entregar naquele momento era o importante, apenas.
Eu amo as histórias. Eu amo viajar, amo o jeito que minha mente se teletransporta e volta. Eu não amo o papel.
Eu amo a leitura, eu amo a escrita, todo o êxtase de colocar nas letras o sentimento do momento, o impulso. Às vezes, escrevo em pedaços avulsos de papéis e os vejo queimar. A emoção do momento é o que me importa.
Tudo isso é muito mágico para mim.

15 dezembro, 2016

Sabe, gatinho, durante muito tempo eu chorei a sua ausência. Eu chorava dias e noites por um misto de mágoa e saudade, e às vezes me perguntava se aquela dor em algum momento iria cessar. Eu te odiava pra tentar compensar a inocência que você me roubou, mas um dia, quando eu abri os olhos, eu me dei conta de que já não doía como antes e que eu estava pronta para seguir em frente. E eu o fiz. Conheci novas pessoas e novos lugares, acreditei que rodando o mundo encontraria um sentimento que preenchesse o vazio de tudo que você levou de mim.
Mas é isso: quando a dor finalmente se foi, ficou o vazio onde costumava morar o ódio que cultivei de você. E esse espaço passou a me devorar. Já há muito tempo esse vazio é tudo que sinto e descobri que te ter não preencheria essa lacuna. O que se foi é pessoal demais, parcial demais. Você jamais poderia repor os sonhos que tirou de mim.
Agora não existe mais ódio, agora não existe mais nada. Apenas continuo buscando me reconstruir.

24 novembro, 2016

São duas horas da manhã e eu estou ouvindo Tiago Iorc. Há horas tomei o meu calmante mas ele não surtiu efeito dessa vez. Hoje passei a tarde nostálgica.
Saudade.