20 novembro, 2025


Nosso relacionamento não morreu de repente. Foi uma sequência de pequenas mortes causadas por grandes mágoas que eu empurrava pra debaixo do tapete. A falência de cada órgão vital, um por um, de maneira lenta e arrastada, enquanto eu colocava aparelhos movidos a insistência e esperança pra tentar salvar cada célula dessa relação.

Você me descartou. Pouco a pouco me colocou em um lugar humilhante de depósito de tudo que achava feio demais para compartilhar com outras pessoas. E eu me tornei só isso. Não tinha mais acesso a sorrisos, notícias boas, experiências novas, empolgação, amor ou carinho. Só o pior, quando decidia que precisava jogar no lixo. A conversa acontecia somente quando você queria, do jeito que você queria, nos seus termos. Se o assunto deixava de ser você, simplesmente sumia. Assim, sem explicações ou disfarces. Apenas a ausência, o tratamento de silêncio. E reaparecia quando bem entendia, como se nada tivesse acontecido, rejeitando qualque faísca de demonstração de afeto ou insatisfação.

Vivi esse luto pouco a pouco, dia a dia, hora a hora. Sofri lentamente, enquanto engolia meu orgulho para ter um pouco de você, porque afinal de contas pouco parecia melhor do que nada. Eu chorei. Chorei muito, e sozinha. Não tive coragem de dividir com ninguém que eu tinha sido assim rejeitada depois de me doar tanto, de defender tanto a gente, de exibir para o mundo a nossa amizade. Senti vergonha. Mas ainda assim, sabendo de todas essas coisas, não consegui simplesmente cortar o vínculo.

Então você fez de mim sua inimiga. Não sei definir em que momento, por qual razão, mas nas nossas conversas o tom sempre presente era de acusação, de disputa. As vezes eu fazia comentários inocentes e você retrucava com ataques. Ataques que se tornaram mais frequentes a cada dia. E continuei varrendo para baixo do tapete porque doía demais admitir. Ainda acreditava que tudo poderia se resolver se a gente ficasse frente a frente, se olhássemos nos olhos uma da outra e relembrássemos que um dia nos amamos. Mas realmente nos amamos? Ou eu te amei sozinha enquanto você alimentava seu ego?

Finalmente entendi: acabou. As microviolências vieram a tona. As vezes que você me puniu silenciosamente por qualquer coisa que te desagradasse, despertasse ciúmes ou ferisse seu ego. A maneira como me sujeitei aos seus caprichos com medo de ser abandonada, sem perceber que já tinha sido entregue à própria sorte. Talvez você nunca tenha realmente me amado, mas não faz mais diferença. 

Eu tenho sofrido muito, mas não de maneira repentina ou intensa. Eu me arrastei até aqui, e pelo caminho fui deixando vários pedaços de mim. Preciso aceitar e seguir em frente, mesmo que ainda doa. A solidão me machuca mas eu convivi com ela a minha vida toda, velha companheira, nada novo sob o sol.

Eu te amei demais. Tenho no corpo nossa marca, nosso pacto. Não sei o que fazer com isso, mas vou viver. Não posso morrer por você de novo. E não vou.


18 novembro, 2025

Eu absorvi comportamentos tóxicos de uma maneira muito absurda. Eu me tornei um reflexo ligeiramente mal iluminado de todas as coisas que me fizeram mal, de todas as dores que penetraram a minha alma.
Eu tenho medo do que sou agora e de todas as mentiras que sou capaz de contar friamente... A lembrança de quem eu era no passado parece um sonho distante que se apaga lentamente da memória.