Final


Fiquei três dias sem medicação pra que eu pudesse chorar. Parece meio ridículo querer chorar, mas engolir toda a dor calada é muito mais cruel. 
Estou cansada de sobreviver. Os remédios evitam que eu entre em crise, seguram meu choro, minha palpitação, meus gritos, mas os remédios não me preenchem. Eu tentei tanto acreditar que tinha solução, acreditar que tudo não tinha passado de uma fase ruim, mas não dá pra ignorar o que já nasceu predestinado dentro de mim.
Estou cansada dessa sensação de dormência que todo esse controle médico trás. Eu quero liberdade, mesmo que ela me custe minha vida. Não quero provar que sou forte e cogitar sempre continuar por motivos alheios. Eu não quero continuar porque isso nunca vai parar. Já estou velha demais pra acreditar que, de alguma maneira mágica, tudo dá certo no final. O final já chegou.
Há três dias não tomo minha medicação e você pode acreditar que é estupidez, mas ninguém jamais vai entender como é precisar sair do piloto automático e respirar pra tentar entender realmente a situação.
Não é como se tivesse um motivo: não há um coração partido, um problema financeiro ou uma briga entre amigos que justifique o que sinto. Não há nada latente ou que possa ter despertado tudo isso. Simplesmente está aqui. Um vazio imenso e uma angústia paralisante. Uma insatisfação pessoal que não tem cura. A ausência de sonhos, de desejos, de boas memórias.
Eu não quero conhecer a praia, e também não quero me casar, nem ter filhos. Eu não quero aprender um outro idioma ou ir pra outro país. Não quero ser famosa e nem quero mudar o mundo. Nada existe pra mim.
Eu passei 20 horas dormindo e 3 horas ininterruptas chorando. Eu só quero que tudo acabe pra sempre. Não quero mais tentar.

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Não se pode confiar nos olhos quando a imaginação está fora de foco.

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