Nosso relacionamento não morreu de repente. Foi uma sequência de pequenas mortes causadas por grandes mágoas que eu empurrava pra debaixo do tapete. A falência de cada órgão vital, um por um, de maneira lenta e arrastada, enquanto eu colocava aparelhos movidos a insistência e esperança pra tentar salvar cada célula dessa relação.
Você me descartou. Pouco a pouco me colocou em um lugar humilhante de depósito de tudo que achava feio demais para compartilhar com outras pessoas. E eu me tornei só isso. Não tinha mais acesso a sorrisos, notícias boas, experiências novas, empolgação, amor ou carinho. Só o pior, quando decidia que precisava jogar no lixo. A conversa acontecia somente quando você queria, do jeito que você queria, nos seus termos. Se o assunto deixava de ser você, simplesmente sumia. Assim, sem explicações ou disfarces. Apenas a ausência, o tratamento de silêncio. E reaparecia quando bem entendia, como se nada tivesse acontecido, rejeitando qualque faísca de demonstração de afeto ou insatisfação.
Vivi esse luto pouco a pouco, dia a dia, hora a hora. Sofri lentamente, enquanto engolia meu orgulho para ter um pouco de você, porque afinal de contas pouco parecia melhor do que nada. Eu chorei. Chorei muito, e sozinha. Não tive coragem de dividir com ninguém que eu tinha sido assim rejeitada depois de me doar tanto, de defender tanto a gente, de exibir para o mundo a nossa amizade. Senti vergonha. Mas ainda assim, sabendo de todas essas coisas, não consegui simplesmente cortar o vínculo.
Então você fez de mim sua inimiga. Não sei definir em que momento, por qual razão, mas nas nossas conversas o tom sempre presente era de acusação, de disputa. As vezes eu fazia comentários inocentes e você retrucava com ataques. Ataques que se tornaram mais frequentes a cada dia. E continuei varrendo para baixo do tapete porque doía demais admitir. Ainda acreditava que tudo poderia se resolver se a gente ficasse frente a frente, se olhássemos nos olhos uma da outra e relembrássemos que um dia nos amamos. Mas realmente nos amamos? Ou eu te amei sozinha enquanto você alimentava seu ego?
Finalmente entendi: acabou. As microviolências vieram a tona. As vezes que você me puniu silenciosamente por qualquer coisa que te desagradasse, despertasse ciúmes ou ferisse seu ego. A maneira como me sujeitei aos seus caprichos com medo de ser abandonada, sem perceber que já tinha sido entregue à própria sorte. Talvez você nunca tenha realmente me amado, mas não faz mais diferença.
Eu tenho sofrido muito, mas não de maneira repentina ou intensa. Eu me arrastei até aqui, e pelo caminho fui deixando vários pedaços de mim. Preciso aceitar e seguir em frente, mesmo que ainda doa. A solidão me machuca mas eu convivi com ela a minha vida toda, velha companheira, nada novo sob o sol.
Eu te amei demais. Tenho no corpo nossa marca, nosso pacto. Não sei o que fazer com isso, mas vou viver. Não posso morrer por você de novo. E não vou.


