Ano novo

Um dia seguinte ao reveillón. Ela está sozinha, e debaixo das unhas há resquícios de sangue; o celular fede a cigarro e cerveja, e digitais incompreensíveis são visíveis por toda a tela touch já um pouco arranhada pela bebedeira.
Algumas feridas estão expostas agora, e não só as físicas.
Foi uma longa noite. Mais um ano se iniciava, e a roupa vermelha não era fruto de superstições ou simpatias, apenas serviria pra disfarçar todas aquelas manchas que provariam que ela nada mais era que a mesma menina carente e insana de alguns anos atrás.
Flashs de memória, música, dança, garrafas sendo arremessadas da sacada. Um gole, um trago, um beijo. Pessoas sorrindo e aquela sensação falsa e doentia de felicidade.
A comida, o sol, a maldita queimação no estômago. Já era dia quando todos foram dormir e ela permaneceu na sacada com a ressaca antecipada e com os lamentos da vida que não teve. Quando os dedos percorreram os fios de cabelo à procura de alívio, o desespero.
Por mais que lavasse as mãos com o sabonete líquido caro daquela gente tão barata, o cheiro do sangue não saía das narinas, e era difícil conter o asco que cultivava de si quando tudo ficava assim confuso.
Ela continua sozinha, e já não há mais nenhuma prova contra si. Pelo ralo vazaram os últimos resquícios do sangue tirados com um palito de madeira. O cheiro já não recendia pelo quarto. Mais uma noite esquecida no meio de milhões de noites boas ou ruins que não merecem uma memória decente. Mas as feridas ainda latejam, e a alma ainda dói tanto.

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Não se pode confiar nos olhos quando a imaginação está fora de foco.

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