27 maio, 2016

"O cheiro e o paladar são os sentidos que mais mexem com a mente humana.
O que me lembro de você é bem parecido com as palavras paciência, carinho e doce.
A vontade que vem, vez ou outra, é de sentir novamente esse cheiro, esse sabor, sentir também os pés, um pouco frios ainda, em cima dos meus ombros.(...) De ter uma oportunidade de parar o tempo em nossas vidas e apenas viver aquele momento.
Claro que nem tudo que desejamos podemos fazer ao mesmo instante e de uma só vez. Mas realmente desejei que estivéssemos ali todo o tempo. Que todos estes anos fossem preenchidos por uma parada temporal. E que nossos momentos infinitos fossem completos.
Desejei que o final daquele sonho não terminasse. A cada momento eu descobria mais que queria estar ali. E a dúvida da realidade nunca foi tão cruel comigo.
Mas qual será o motivo de estar escrevendo isso agora?
Meus quase lamentos são pelo que vivemos em um espaço tão curto, com tanta pressa. Como se no mundo existisse algo melhor para se fazer... E são sinceros como sempre. Eu não quero te deixar confusa com tanto blá blá blá, mas é que comigo esse sentido de te ver sentir prazer é uma satisfação pessoal, uma diversão.
Enfim posso dizer que gosto de você, e que, apesar do tempo, ainda te desejo muito."


Escrito por J.M. , dono das mais lindas homenagens que já recebi.

18 maio, 2016

Decisão

Eu embolando meu pijama e colocando no cantinho do guarda roupas e você, teimoso, insistindo em dobrá-lo. É assim que nós somos: você organizando a confusão da minha casa e da minha vida, eu quebrando seu gelo, bagunçando sua agenda, roubando suas horas. Eu passo abrindo as portas, e você fechando-as.
Olhei para as malas, respirei fundo e repensei se daria mesmo certo. Duas criaturas completamente diferentes, em todos os sentidos, tentando se encaixar feito um quebra-cabeças estragado. Tive medo dessa decisão.
Mas deu.
E não estou falando só das nossas noites de pipoca e netflix. Tem dado certo todas as manhãs quando você se levanta para me dar um beijo de bom dia e todas as madrugadas em que velo teu sono. Tem dado certo quando fazemos piada com tudo e rimos até a barriga doer. Tem dado certo quando brigamos por causa da coberta cinza e terminamos embolados, grudados, ofegantes e satisfeitos. Tem dado certo até mesmo quando discutimos por causa da posição que o rodo fica no banheiro, e então eu me lembrei que são mesmo as peças diferentes que se completam.
E me encaixei em você.

16 maio, 2016

Numa dessas tardes tranquilas de trabalho, relatei a minha história de vida a uma colega de trabalho. Ao falar do meu relacionamento, das idas e voltas, das incertezas, ela me olhou com um olhar compreensivo e falou com calma: "Não é amor, é apego."
A noite, enquanto rolava na cama, a palavra se repetia na minha mente incessantemente. Apego, apego, apego.
Sabe, talvez ela tenha mesmo razão. Quando eu tentava entender o que, na falta do amor, me mantinha em relações problemáticas, nunca encontrava a definição certa, Apego. E isso sempre foi o máximo que consegui sentir por alguém.

04 maio, 2016

Pregação

Na tarde de ontem, eu estava no meu local de trabalho, quando um senhor de meia idade que aguardava na recepção se aproxima do balcão. Do nada, pergunta se sou evangélica. Respondo com calma que não. Ele repete a pergunta, repito a resposta.
Me olhando com um misto de raiva e pena, ele pergunta: "Por quê?". Acho prudente ficar em silêncio. Me pergunta então se sou católica, e, na esperança de encerrar o assunto, digo que sim e me ponho a fazer algo para demonstrar que estou ocupada.
Ele insiste: "Nunca quis ser evangélica?" "Não", respondo já um pouco irritada pela inconveniência. "Por quê?", ele brada em voz alta. Com uma paciência forçada, digo lentamente que cada um tem as suas crenças e suas escolhas e volto a trabalhar. Insistente, ele me pergunta arrogante em que parte da bíblia está escrito que os católicos serão salvos. Mentalmente solto um palavrão e paro de prestar atenção no que ele diz. Uma cascata de fanatismo preconceituoso começa a jorrar da boca dele em forma de pregação, ignoro e exclamo "uhum" vez ou outra para fingir que estou prestando atenção. Ele não para. Distinguo que, nervoso, ele está citando versículos; faço cara de interessada na tentativa de acalmá-lo. Todos os pacientes o olham assustados e me encaram em seguida com olhares de acusação; Me questiono o porquê de tanto ódio, porque é que ele se incomoda tanto com uma afronta que não fiz? O senhor não é aparentemente portador de nenhum distúrbio mental, eu não o conheço e não dirigi a palavra a ele. O tratei com a educação típica que uso para lidar com o público. Me forço a prestar atenção, e ele está vociferando ofensas contra mim em meio à citações bíblicas. 
Uma paciente, compadecida, inicia um assunto qualquer comigo, que volto minha atenção a ela e o senhor se cala. Depois que é atendido, antes de cruzar a porta, ele me lança um olhar de reprovação recheado de ódio, pragueja contra mim em voz baixa, e se vai. Volto a fazer meu trabalho, com paciência e educação.
Não é a primeira vez que passo por uma situação semelhante, elas acontecem com frequência em diferentes tipos de ambiente, e agora pergunto: Porquê as pessoas pregam tanto ódio e discriminação em nome de religiões que, na teoria, seriam feitas para disseminar o amor?

06 abril, 2016

Crime

Mais de um ano se passou.
Mais de 365 dias precisaram se passar para me dar a certeza mais incerta da minha vida: Eu nunca vou te esquecer. Eu não sei de quantas maneiras diferentes esse sentimento pode se manifestar, mas sei que, de alguma forma, ele sempre estará aqui.
No início, tentei fugir da nossa história; te isolar de todas as formas possíveis e me manter distante o suficiente para que você não me afetasse mais. Eu quis nunca mais ver seu rosto ou ouvir sua voz, mas nada saía como o planejado e fui ficando desesperada até me proibir de pensar em você. As memórias passavam pela minha cabeça e eu evitava me aprofundar em qualquer uma que fosse pra não quebrar minha promessa. Parei de te stalkear e de tentar entender o que eu ainda sentia. Apaguei todas as nossas fotos e excluí os seus amigos de todas as minhas redes sociais.Funcionou. Por um tempo.
Até que as mágoas começaram a me engasgar quando eu menos esperava, e o estômago reagia muito mal à qualquer vislumbre da sua imagem. A raiva se tornou uma bola de neve, me congelando por dentro e absorvendo cada lembrança ruim: tudo o que você me fez, detalhe por detalhe, passava diante dos meus olhos diariamente. E então, eu quis matar você. Não só dentro de mim. Eu quis assassinar você, literalmente. Num dia sombrio, comprei uma arma e então todas as noites dormia agarrada a ela como se fosse minha única chance, a única esperança de me livrar de vez de toda essa raiva. Planejei por milhares de vezes, até perceber que matar você não me traria paz.
Matar você não apagaria nada do que vivi.
Matar você não me faria te esquecer.
Com uma pressa surreal, vendi aquele objeto e quase enlouqueci de culpa. Talvez eu tivesse mesmo sido capaz. Não faz diferença. Por causa daquela maldita arma, eu voltei a pensar em você e, com cada vez mais frequência, a escrever sobre nós. Você não merece uma dúzia de palavras escritas no meu diário, é verdade. Mas é dono de todas elas. Uma por uma. De cada letra.
E hoje vejo com clareza o absurdo de toda essa situação. Eu não consigo me livrar do passado, e sei que não há possibilidade para o futuro. Estou presa num espaço tempo e fui forçada a colocar minhas insanidades naquela última gaveta da alma. Você não cabe na minha vida, mas o seu fantasma não sai da minha história. Você levou um pedaço de mim que nunca mais voltará, rapaz. Você roubou os meus sonhos e tirou a minha paz.
Isso não é uma declaração de amor, caso pareça. Nem de ódio, garanto.
Isso é um desabafo, a única maneira que encontrei de racionalizar a minha loucura: dividindo-a com você. Faça o que bem entender. A verdade é que, de uma maneira ou de outra, eu sempre vou te pertencer. 

28 março, 2016

Presente

Vê aquele cara na fila da livraria? Aquele, com um livro de romance nas mãos, batendo o pé freneticamente pra espantar a impaciência, de camisa gola pólo vermelha e um cordão dourado com pingente de ferradura?
Viu?
Ele odeia livros de romance. Na verdade, ele não gosta muito de ler. De longe, observo o olhar dele percorrer os marca textos, os post its, as canetinhas. Sei que nada daquilo o chama atenção. Mas ainda assim ele olha tudo, puxa um marca páginas com um desenho bonito e enfia desajeitadamente entre as páginas.
Eu ando disfarçadamente por entre as prateleiras e o ouço conversar com alguém. Paro para admirar aquele sorriso e escuto ele dizer, cheio de orgulho, que a namorada dele é muito inteligente e ama ler. Que ela leria um livro por dia se tivesse tempo e que está ali por ela. 
Aquele livro que ele segura é pra mim.
Não olha pro meu rosto agora, meus olhos estão um pouco molhados, deve ser o tempo, talvez o ar condicionado. Olha pra ele. Repara o jeito surpreso como ele me abraça quando me vê, coloca o livro nas minhas mãos e me dá um beijo rápido na testa. Será que você enxerga o mesmo que eu? Será que vê nos olhos dele o mesmo amor que ele me faz sentir?
Tá, pode dizer que eu sou mesmo uma manteiga derretida. Mas meu namorado é o cara mais lindo do mundo inteiro.

Cotidiano

A minha cachorrinha de estimação dá o alerta. Primeiro, um latido, depois, um resmungo choroso, e então vem correndo e, abanando o rabo, chora, lambe meus pés e corre em direção ao portão. Eu sei quando ela sente seu cheiro, ela sente sua presença muito antes da sua chegada, e, anúncio dado, eu corro para o portão com um brilho inconfundível nos olhos.
Eu gostaria de poder descrever fielmente a sensação de conforto que o seu cheiro me dá. Uma mistura cítrica da lavanda da sua roupa e da excentricidade do seu perfume que me embriaga e me faz flutuar. Descrever como qualquer lugar parece meu quando durmo enroscada nos seus braços e como não tenho medo de nada quando você segura minha mão. Às vezes chega a ser doentio a maneira como a minha saudade se manifesta, desesperada, mesmo quando você está por perto. Me faz pular no seu colo no meio de uma faxina e beijar sua boca com paixão.
Eu nunca soube antes como era dormir ao lado de alguém, dia após dia, sem medo do amanhecer; Acreditava ser normal padecer de ansiedade pela partida de um cara que nunca ficava depois que o dia nascia. Aceitava, conformada, o pavor das quintas feiras, dos sumiços repentinos, do abandono. Mas agora não tenho palavras suficientes pra explicar a felicidade de partilhar meu cotidiano com o seu sem restrições, sem regras, sem traumas.
Você faz parte da minha vida de uma maneira única, e essa intimidade gostosa me surpreende a cada dia nos mínimos detalhes.

02 março, 2016

A conta

E quantas vezes você já fez ela chorar? Quantas? Muitas? O mesmo número de vezes que você fez comigo? Ou apenas o suficiente pra traumatizar ela pra sempre?
Confesso que atualmente tem algumas coisas horríveis dentro de mim, mas afirmo que foi você quem despertou a maioria delas. Eu nunca havia odiado ninguém. Não, nunca mesmo. Nem mesmo suas peguetes ou pessoas do meu passado que me magoaram muito. Mas aí você se esforçou um bocado pra me humilhar e anulou em mim qualquer resquício de empatia por pessoas do seu caráter.
Você não se dá conta, rapaz, mas é um lixo. Foi comigo e pior ainda com todas as que passaram antes. E está sendo com ela também, mesmo que negue, que me culpe e diga que só fez aquilo comigo porque eu deixei. Ninguém tem o direito de se aproveitar da ingenuidade alheia, e qualquer um que o faça, é um babaca. Talvez ela não seja tão ingênua como eu fui, mas a sua falta de caráter não vem de ninguém além de você mesmo. Pode ser que ela ainda ache que existe algo bom em você, talvez enxergue com a neblina da paixão, assim como eu enxerguei, mas um dia ela vai se dar conta das coisas que demorei anos pra perceber, vai te ver sem máscaras e quem sabe seja tarde demais pra ela. E, acredite, eu não quero vê-la chegar nesse ponto.
Mas não se ache único. Assim como você, 'tá cheio de outros por aí, eu sei; e isso só me faz ter ainda mais raiva. Uma multidão de mulheres sendo exploradas psicologicamente por canalhas como você e eu só queria não ter que ver, nunca mais, nenhuma delas passar por isso. E agora eu decidi que vou enviar a conta pra você.
Sei que já faz um bom tempo, mas o ódio é um veneno perigoso, rapaz. E eu não vou morrer sozinha envenenada por ele. Não vou deixar você jogar nas minhas costas o preço dos seus atos. E também não vou deixar que elas paguem pelos seus erros. Você vai pagar. Vai pagar caro por eu já estar pagando tanto.
Eu não era ruim antes de te conhecer. Você me tornou essa pessoa áspera e vingativa. E a conta por isso vai chegar também.

23 fevereiro, 2016

Liberdade

Esperei anos pra ver você voltar pra mim. Longos e tortuosos anos mantendo a esperança viva e evitando acreditar que minha melhor amiga tinha ido embora pra sempre. E então, numa tarde quente de sábado, você me ligou em prantos, e eu soube que tinha acontecido. A sua ficha tinha caído. Eu sabia que tava doendo pra caramba enxergar de novo a luz do sol, e fui correndo segurar sua mão, mas não disfarcei o sorriso quando você mesma bradou com força e propriedade que estava livre.
O cativeiro afetivo ainda é realidade de milhares de mulheres mesmo nos dias atuais, em meio a uma luta fervorosa do feminismo. E eu assisti de perto você ser vítima dele, se submetendo aos caprichos doentes de um machista qualquer, se rendendo à regras absurdas impostas pela pressão psicológica a qual era submetida. E eu fiquei ali, impotente, continuando esperançosa mesmo quando doía tanto em mim que eu só pensava em desistir. Eu já passei por isso também, embora por um tempo significativamente mais curto, e talvez seja esse fato que me manteve aqui, que manteve acesa a minha empatia mesmo quando seus atos me traziam irritação.
E num dia qualquer todo esse seu processo de libertação finalmente se concluiu. Pisquei algumas vezes pra ter certeza de que não estava sonhando e depois que seu pranto cessou eu saí pra te reapresentar ao mundo. Te abracei forte pra te reapresentar pra mim. Seu coração havia voltado a bater, seus cabelos cheiravam à vida. A fria barreira de gelo que nos separava finalmente pareceu ter ido embora pra sempre.
Obrigada por voltar, minha pequena, tava tudo muito triste sem você aqui.

01 fevereiro, 2016

Esse clichê é pra você

O dia a dia vai trazendo intimidade e seu conforto me parece cada vez mais essencial; Sua presença se tornou tão natural que tenho medo do efeito da sua ausência. Há quase seis meses você comprava o meu pão pela primeira vez e eu sequer imaginava que você tinha vindo pra ficar -de verdade-.
Nós não temos medidas, passamos dias dormindo e acordando do lado um do outro sem vontade de nos afastar. Às vezes, ao acordar, nos espreguiçamos juntos, desejando que o relógio nos dê uma hora a mais pra ficarmos ali abraçados e imóveis... Outras vezes, assim que abro os olhos, você já está de pé e diz com naturalidade "Bom dia anjo, tem toddynho na geladeira", e eu sorrio de maneira infantil enquanto te admiro.
Nos domingos, nos arrastamos pelo carpete da sala como se tivéssemos esquecido como ficar de pé; Criticamos os filmes, você resmunga por ter que assistir suspense, eu te belisco por contar o final da história. Nos beijamos, nos abraçamos, e vez ou outra travo uma luta que já sei que vou perder só pra te ver segurar com força os meus braços e rir alto da minha insistência. E tudo isso me faz sentir extremamente leve.
Eu sei que nada disso faz muito sentido porque vivo dizendo que não temos nada em comum, desmontando em insatisfações cada pedaço dessa nossa história, mas entenda que meu amor é assim: desarrumado. Ilógico. Inseguro.
Eu me apaixonei por você desde a primeira vez que te vi, e duvidei que pudesse existir um clichê tão patético na minha vida. Naquela noite dormi encantada pelos seus olhos, pelos seus gestos, pelo seu português embaraçado de portugal, mas não quis admitir isso, nem pra mim mesma. E naquele mês que se seguia eu tentei fugir disso de todas as maneiras que consegui. Mas não deu pra fingir que não 'tava acontecendo nada e que eu não queria você em todas as minhas festas malucas. Porque eu queria, anjo. Eu queria mais que tudo. E o que me trouxe até aqui é que você queria também. E agora, todo esse clichê é pra você. Os atritos existem, é verdade, mas dia a dia estamos aprendendo juntos a contorná-los, e é por isso que eu não tenho mais vergonha de ser pateticamente romântica. Porque estamos juntos. Juntos até pra sermos ridículos. Até pra sermos grudentos. Juntos pra valer.