'Você chora demais', ele disse.
Sim, eu choro demais. Demais, além do que deveria, além do que posso suportar. Se ele pudesse imaginar como cada lágrima me dói, como cada choro me mata um pouquinho... Se ele soubesse como me torturam as lembranças, quando me deito pra dormir, de cada crise de choro... Uma por uma. Se ele entendesse a gravidade de cada choro, mesmo insistentes e inacabáveis... Sim, eu realmente choro demais, eu merecia chorar menos, merecia sofrer menos. Ou não. Mas deveria chorar menos.
Certa vez presenciei uma discussão entre meu pai e minha mãe; ela estava sofrendo de depressão e passando por diversos transtornos psicológicos parecidos com os meus. Eu ouvi quando o tom de voz dele se alterou e ela desabou. Chorava a ponto de soluçar. Ele bravou: 'Você parece uma casquinha de ovo! Não se pode tocar que está desmontando, que está em prantos, que dá crises!'
Eu não podia compreender um terço do que se passava, me irritava com os gritos e me magoava com a situação, mas não podia compreender. Mas de alguns anos pra cá, martelam diariamente na minha cabeça as palavras do meu pai, casquinha de ovo, casquinha de ovo. Hoje sei bem o que se passava. Como deve ser difícil lidar comigo! Me sinto a cada dia mais ridícula e mais insuportável.
'Não queria que chorasse tanto', ele continuou.
Eu também não, acredite - pensei - mas não respondi. Me pareceu um remendo desesperado na tentativa de me confortar, ele sentiu que poderia me deixar pior (tudo me deixa pior!).
Sinto que incomodo com meu choro sentido brotando a cada palavra alheia. E sei que vou acabar afastando todas as pessoas com meu pessimismo e minhas lágrimas insessáveis. Sei que vou cansar a todos, como cansei os que já passaram e se foram.
Sofro em dobro. O choro é apenas uma reação de tudo que me maltrata por dentro, mostra que sofro a ponto de transbordar. E sofro por sofrer, sofro por deixar transparecer meus sentimentos ruins. Sofro por não ser forte o suficiente para barrar tudo isso e manter só dentro de mim. Sofro por afastar tanto as pessoas que eu mais queria por perto. 

"E toda dor vem do desejo de não sentirmos dor..."  
(Renato Russo)

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Não se pode confiar nos olhos quando a imaginação está fora de foco.

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