Vestígios

Sabe, rapaz, foi muito difícil me livrar de toda a bagunça que 'cê fez em mim. Deu um trabalho danado pra me desintoxicar do veneno, da dor, da raiva... Pra colocar os pedaços em ordem, aquela parte da minha alma que 'cê despedaçou e deixou espalhada por aí. E, sabe como é, apaguei todos aqueles vestígios porque sabia que ia doer lembrar da gente depois de todo esforço pra te tirar de dentro de mim. Demorei muito pra entender que ficar olhando nossas fotos perfeitas não ia consertar o que havia de tão errado na gente, e fiz uma fogueira enorme pra queimar todas aquelas fotos, pois sabia que qualquer fogo era pouco pra transformar em cinzas o tamanho do significado daquelas imagens.
Eu tive que jogar quilos de maquiagem por cima de todas essas cicatrizes que ficaram no peito. E joguei maquiagem no rosto também, pra esconder as olheiras, pra parecer feliz nas baladas que frequentava assiduamente na tentativa de te esquecer. Subi no salto, engoli seco e sufoquei todas as lembranças pra poder seguir em frente; evitei falar, escrever e até pensar sobre nós. Achei que ignorando podia apagar de vez esse passado.
Mas hoje, no meio da vida blindada que construí pra mim (depois de ser estraçalhada pelas suas investidas), eu dei de cara com uma brecha: um pen drive velho esquecido no fundo da gaveta recheado da nossa história. Uma coletânea de fotos, textos e mensagens que achei ter apagado pra sempre. 'Tava tudo muito afiado e feriu fundo, 'cê nem imagina. Meus olhos se derramaram em lágrimas, todas essas lembranças entraram como uma mão gigante e trouxeram de volta a sujeira que enfiei às pressas debaixo do tapete. Tá tudo aqui, rapaz, as lembranças, as mágoas, a dor, tudo exatamente como você deixou.
Daqui a alguns dias vai completar um ano desde aquela tarde pálida de natal em que vo me abandonou. Não pela primeira vez, mas pela última. 365 dias. E ainda dói.
Eu retomei o meu mantra, esperançosa; recomecei a minha missão. Apaguei todos aqueles vestígios mais uma vez, e, mesmo sabendo que vai levar um longo tempo pra apagar da memória, pisquei várias vezes, limpei o choro e me levantei. 'Tá tudo de cabeça pra baixo de novo, pedaços espalhados por aí, mas eu não desisti de mim. Tô juntando tudo de novo e erguendo a cabeça. Eu sei que um dia vai ser preciso muito mais que algumas fotos antigas pra desconstruir minhas certezas. E quando esse dia chegar, rapaz, espero que não 'cê queira voltar, porque não vão existir brechas pra me derrubar.

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Não se pode confiar nos olhos quando a imaginação está fora de foco.

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