E agora eu apenas busco me distanciar o bastante para ver tudo como um grande pesadelo. Apagar uma cidade inteira, cheia de histórias e de pessoas e de sentimentos, como se nada tivesse sido real. É, eu sei que é loucura, mas não há mais nada que me prenda além dessas lembranças confusas e embaçadas. E, sabe, não faço questão de que elas sejam nítidas, pois tudo me doeu demais.
Deitada sob o cobertor, eu escuto o barulho da chuva e dos trovões, e sinto o cheiro bom de estar em casa. O cheiro do perfume cítrico do meu irmão misturado ao dos doces em cima do armário. A sinestesia do cheiro das cores da parede do meu quarto. Do gosto do beijo do vento que entra pela janela. O calor do som do violão vindo na sala.
O frio nos meus dedos, a paz.
Eu fecho os olhos e ainda vejo e sinto tanta coisa que aconteceu nesses últimos anos, mas eu me libertei, é tudo distante e sei que agora não pode mais me afetar. Não há saudade e aquela vida não cabe mais na minha vida.
Estou no vão entre o passado que já encerrei e o futuro que ainda nem comecei. Estou no presente, finalmente. Não, não há história e não há ninguém. Mas há uma folha em branco, sem rasuras, sem condenação, e eu posso seguir em frente sem precisar olhar para trás.O pesadelo acabou.


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Não se pode confiar nos olhos quando a imaginação está fora de foco.

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