Amanheceu, era o último dia do ano. E eu vi aquele cara partir com a cara amassada me desejando um bom réveillon. Um beijo na testa e fiquei parada escutando seus passos pela escada. Eu e ele, bem, a gente fingia ser um do outro de vez em quando, mas eu sabia que era apenas mais um corpo que sempre ia embora antes do 'te amo', sempre na hora oportuna. Era o último dia do ano e eu também sabia que não tinha ninguém. Sabe, eu bem quis que ele quisesse passar o Réveillon comigo, que me convidasse, e a gente poderia rir um pouco, beber algumas doses de vodka e dizer que gostávamos um do outro. A gente poderia se divertir e se beijar quando a contagem regressiva acabasse. Eu poderia olhar pra ele e acreditar que estava apaixonada. Estar do lado dele me faz esquecer um pouco que ele nunca está realmente do meu lado. Eu poderia roubar os amigos dele e rir com eles como se fossem meus. Eu poderia esquecer de todos os outros 364 dias de angústia que viriam pela frente, ao menos por um momento. Ao menos no primeiro dia.
Mas ele se foi sem mais palavras, e minha solidão sussurrou em meu ouvido como ia ser duro começar mais um ano me sentindo assim. Os passos na escada silenciaram, ele já havia partido. Eu quis chorar, mas em vez disso, eu ri. E o riso foi virando soluço e virou um gemido estranho. Eu quis chorar, mas então gritei. Gritei porque não cabia mais esse tamanho de dor aqui dentro e era muito difícil conviver com ela. Porque não sabia mais o que fazer e eu tinha que fazer alguma coisa. 
Gritei porque era o último dia do ano e eu sabia que não faria diferença nenhuma.

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Não se pode confiar nos olhos quando a imaginação está fora de foco.

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